'Um Dia' tem riqueza de detalhes e personagens que superam a história

'Um Dia' tem riqueza de detalhes e personagens que superam a história

Lone Scherfig começou na Dinamarca, fazendo pequenos filmes do Dogma. Italiano para Principiantes, Wilbur Quer se Matar. Premiada em Berlim e Sundance, ela foi cooptada por Hollywood e fez Educação, baseada em Nick Hornby. O filme foi para o Oscar e Lone, com o aval da grande indústria, propõe agora outra adaptação - do livro cult de David Nicholl.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 de novembro de 2011 | 22h00

Não há nada menos parecido com um filme de Lone do que o cinema de François Truffaut e, no entanto, ambos, a dinamarquesa e o francês, tratam quase exclusivamente do mesmo tema - a educação sentimental. Um Dia conta a história de Emma e Dexter. O espectador nem se dá conta, mas prevalece o ponto de vista de Dexter.

No início, ele é um cara bom, mas perdido, como lhe diz a mãe, num belo diálogo antes de morrer. Dexter, depois de muito errar, acha seu caminho por meio de Anne. Mas é uma daquelas tristes descobertas, feita quando já é tarde demais. Há cerca de 40 anos, Love Story virou fenômeno geracional. Com Um Dia (o livro), ocorreu a mesma coisa. O filme possui qualidades, mas seu impacto foi menor, há que admitir.

A lenta evolução do romance de Emma e Dexter se faz por meio de um dia na vida, durante 20 anos. O começo, uma espécie de prólogo, parece uma cena perdida, sem peso no relato. Quando a mesma cena volta é que o espectador percebe seu significado. Um Dia tem um desfecho que pode ser considerado de dramalhão. Lone Scherfig sabe disso, daí a laboriosa construção de seu filme.

Um Dia valoriza mais os personagens que a história. É feito de pequenas densidades e sutilezas. Um Dogma da grande indústria? Uma contradição em termos. Toda a ênfase está nos diálogos, não apenas os de Emma e Dexter, interpretados por Anne Hathaway e Jim Sturgess, mas os diálogos dele com os pais, que acompanham com apreensão o fato de o filho parecer perdido (no mundo).

O filme é sobre educação sentimental, sobre a passagem do tempo - e sobre a morte. Wilbur, para desespero de seu irmão, queria se matar. A morte, sorrateira, subverte os códigos românticos de Um Dia. O mais interessante no cinema de Lone Scherfig é essa sensação de perda no final. Não é só a ausência de happy end. É também a sensação de que o próprio cinema da autora - interessante, empenhado, criativo - ainda não atingiu o ápice que seu talento autoriza esperar (um dia).

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