Um conto budista na tela do coreano Kim Ki-duk

Em apenas oito anos de carreira - iniciada em 1996, com Crocodilo -, o coreano Kim Ki-duk realizou 12 filmes que lhe valeram excelente reputação em seu país e o transformaram em ponta de lança do cinema da Coréia no mercado internacional. O longa mais recente do diretor de 44 anos, A Samaritana, passou no Festival de Berlim, em fevereiro. O anterior, Primavera, Verão, Outono, Inverno ...e Primavera, estréia hoje nos cinemas da cidade. É um belíssimo filme de inspiração budista, sobre um discípulo que toma lições de vida com seu mestre e aprende que o importante não é a duração da existência, mas o peso. Há coisas que são mais importantes para cada um de nós. As paixões terrenas possuem um peso e atiram o homem para baixo, mas Kim Ki-duk não acredita no homem nascido para o mal e a perversão. "Todos temos nossos demônios e também nossos anjos", diz o diretor, que teve formação protestante, flertou com o cristianismo e chegou ao budismo, mas diz que poderia ser também judeu ou muçulmano. Os princípios de todas as religiões se parecem, afirma Ki-duk, e quando os homens se derem conta disso um grande passo será dado no rumo do entendimento universal. Kim Ki-duk encontrou-se com o repórter do Estado durante o Festival de Berlim. Ele fala inglês, mas não dispensou um intérprete para também responder às perguntas em coreano. Contou histórias esclarecedoras. Filho de um camponês que ficou incapacitado na Guerra da Coréia, criou-se numa família em que a figura forte era a da mãe. Conheceu o cinema bem tarde, no começo dos anos 1990, quando viajou à França para encontrar-se com amigos que estudavam pintura em Montpellier. Resolveu que também queria ser pintor e freqüentou aulas numa academia francesa. Em 1992-93, viu os três primeiros filmes de sua vida - Os Amantes de Pont-Neuf, de Léos Carax; O Amante, de Jean-Jacques Annaud; e O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme. Ficou tão impressionado que resolveu escrever um roteiro, que terminou virando seu primeiro filme, feito somente em 1996. Há um elemento de violência que percorre o cinema de Kim Ki-duk e se faz presente desde um de seus primeiros filmes, Endereço Desconhecido (Unknown Address), sendo mesclado a um erotismo intenso no filme mais radical do diretor - A Ilha. Você deve se lembrar do impacto que o filme causou no Festival de Veneza e, depois, na Mostra Internacional de Cinema São Paulo, com sua história da prostituta que atende uma comunidade de pecadores. Numa cena particularmente polêmica, ela rasga o próprio clitóris com um anzol. Comparativamente, o clima de Primavera, Verão, Outono, Inverno ...e Primavera é mais compassivo e suave. O discípulo aprende que a importante na vida é o espírito e não a matéria, por mais que seja perturbado pela experiência do amor de uma mulher. Garoto, ele escala um rochedo para ver a jovem nua e é arremessado - pelo peso metafórico das coisas - para o fundo do mar. O clima é igualmente brando em Samaritan Girl, em que o diretor trata de prostituição juvenil, mas as cenas de sexo da estudante são quase inexistentes. "É um filme sobre relacionamentos, sobre perdão, não sobre sexo", explicou Ki-duk. Se a experiência budista do filme que estréia hoje libertou o diretor em A Samaritana - e você poderá confirmar isso quando o filme passar na mostra, em outubro -, o conto das quatro estações do autor (Primavera, Verão, Outono. Inverno ...e Primavera) tem um templo com aberturas para todos os lados - norte, sul, leste, oeste -, que se transforma em representação do próprio ciclo das estações. Até por causa delas, é um filme sobre o tempo e sobre o difícil aprendizado que pode conduzir as pessoas à maturidade.

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