Um ciclo para celebrar a São Paulo dos vencidos

Poesia, realismo e dor. Completam-se, no dia 25, 446 anos da fundação de São Paulo pelos jesuítas. A data terá muitas comemorações. A primeira começa nesta terça-feira no Memorial da América Latina, que programou um mês inteiro de filmes que têm a cidade como cenário. E não é só. Além do grande show que sempre ocorre no dia 25, o Canal Brasil também vai mostrar nesse dia 24 horas corridas de filmes e clipes sobre São Paulo. Muitos deles são clássicos.No texto distribuído à imprensa, a Assessoria do Memorial justifica o título da mostra - São Paulo: Poesia, Realismo e Dor - dizendo que o cinema lança suas lentes sobre a rica substância humana que compõe essa metrópole tão cosmopolita e também amarga e indiferente aos dramas cotidianos de seus habitantes. Temos assim uma anticomemoração - a São Paulo nada chapa-branca, dos derrotados e dos solitários. Os filmes, em vídeo, serão exibidos na Biblioteca Latino-Americana Victor Civita, que dispõe de quatro cabines com cinco audiofones cada, permitindo a livre fruição individual dos programas.Obras dos anos 50 e 80 compõem o programa do primeiro dia - o curta Dov´é Meneghetti?, de Beto Brant, com 12 minutos, sobre o chamado "ladrão elegante" dos anos 20, e os longas Quem Matou Anabela?, de D.A. Hamza, e Anjos da Noite, de Wilson Barros. É verdade que o mais paulistano dos cineastas não está representado na programação - Noite Vazia de Walter Hugo Khouri, seria, naturalmente, forte candidato a compor um dos programas, o mesmo ocorrendo com São Paulo S.A., de Luís Sérgio Person, outro grande ausente -, mas de resto não faltam títulos fundamentais em qualquer filmografia sobre São Paulo.Apenas alguns deles: Anjos do Arrabalde, de Carlos Reichenbach, Ao Sul do Meu Corpo, de Paulo César Saraceni, Cidade Oculta, de Chico Botelho, A Dama do Cine Shangai, de Guilherme de Almeida Prado, O Grande Momento, de Roberto Santos, O Homem Que Virou Suco, de João Batista de Andrade, A Hora da Estrela, de Susana Amaral, Lição de Amor, de Eduardo Escorel, O Rei da Noite, de Hector Babenco, Sábado, de Ugo Georgetti, e Vera, de Sérgio Toledo. E não falta nem Mazzaropi, o comediante que uma recente pesquisa do Canal Brasil apontou como o maior do cinema brasileiro, à frente de Oscarito e Grande Otelo. Mazzaropi ainda não era o jeca quando fez Sai da Frente, com direção de Abílio Pereira de Almeida, em 1952, mas a história do motorista que se esquece de frear o caminhão e o veículo some nas ruas de São Paulo não é só mais divertida do que a maioria das comédias de sua fase de astro, como também revela uma cidade mais provinciana (e humana).Neo-realismo - Sai da Frente antecipa de seis anos a O Grande Momento, que é de 1958. Por meio desses filmes e, depois, até Cidade Oculta e Anjos da Noite, em 1986 e 87 pode-se estabelecer uma geografia urbana e também uma (r)evolução estilística que tem a ver com ciclos evolutivos do cinema brasileiro. O dramaturgo Abílio Pereira de Almeida saiu do TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, para a Vera Cruz, que tentava criar uma Cinecittà nos trópicos, impondo o que seus criadores consideravam um cinema de qualidade, em oposição às chanchadas carnavalescas que dominavam a produção carioca, da Atlântida.Almeida foi ator e forneceu argumentos à Vera Cruz, mas, convencido de que a empresa se elitizava, ajudou a criar o fenômeno Mazzaropi, por acreditar numa linha de cinema mais popular. Foi contra esse cinema de estúdio que se insurgiu Roberto Santos, que assimilou a influência do neo-realismo italiano em O Grande Momento, nisso se aproximando daquilo que Nelson Pereira dos Santos fazia na antiga Capital Federal, com Rio 40 Graus e Rio Zona Norte. Não por acaso, Nelson produziu O Grande Momento, por acreditar naquele cinema de vertente social, comprometido com a gente simples, do povo.Na Itália, o neo-realismo também evoluiu e foi substituído pelo realismo interior de Federico Fellini e Michelangelo Antonioni - em cuja fonte, a célebre trilogia da solidão e da incomunicabilidade, Khouri bebeu para fazer Noite Vazia. Numa outra vertente, mais investigativa no sentido político e social, e que levou ao cinema documentado de Francesco Rosi na Itália, Person, que cursara cinema no Centro Sperimentale de Roma, buscou os fundamentos, senão exatamente a inspiração, para fazer São Paulo S.A., colocando na tela, com vigor crítico, o ainda incipiente processo de industrialização paulista nos anos 50 e 60.Nos 70, já pós-cinema novo, João Batista de Andrade fez de O Homem Que Virou Suco um marco do cinema de consciência social, ampliando, na ficção dramática, o drama daqueles nordestinos emigrados para São Paulo e que Geraldo Sarno, no genial documentário Viramundo, havia focalizado com ênfase no fenômeno religioso, que não era o que interessava a Andrade. José Dumont, no papel-título, tem uma atuação antólogica - daquelas que justificam uma carreira de ator. Nos 80, o cinema produzido em São Paulo (e sobre São Paulo) ingressa nos meandros da pós-modernidade, com seu culto dos simulacros. E surgem filmes como Cidade Oculta e Anjos da Noite, e logo em seguida A Dama do Cine Shangai, cheios de referências.Quadrinhos - Botelho foi buscar sua inspiração no personagem Spirit, criado pelo americano Will Eisner. Estudando o visual dos quadrinhos dos anos 40, o diretor e seu fotógrafo (José Eduardo Eliezer) estabeleceram o que seria a tessitura das imagens do filme - que não é uma adaptação de Spirit, nem das fantasias de Eisner. Ao contrário do que ocorre no original, o tira é vilão de Cidade Oculta e o filme ainda proporciona a Carla Camurati o que talvez seja seu momento emblemático como atriz, criando a mítica e sexy Shirley Sombra. Dos quadrinhos de Botelho, a influência de Almeida Prado salta para o próprio cinema, não sendo por acaso que seu filme contém, no título, a citação do que não deixa de ser a obra-prima de Orson Welles - A Dama de Shangai.O ciclo praticamente pára nos 80. Avança pouco nos 90 - casos de Sábado, de Ugo Georgetti, mais um ou outro título, incluindo Quem Matou Pixote?, de José Joffily, generoso na proposta, mas canhestro na ficcionalização, melhor seria dizer, na melodramatização da história de Fernando Ramos da Silva, o garoto que Hector Babenco colocou no papel de Pixote em seu clássico e terminou incoporando a tragédia do personagem. Justamente o Pixote de Babenco é outro clássico que falta na programação, mas Babenco comparece com seu primeiro longa de ficção, O Rei da Noite, de 1975, após O Fabuloso Fittipaldi, com Paulo José no papel do boêmio paulista que se apaixona pela filha da amiga da mãe, mas se casa com outra mulher, com a qual vive brigando, para que o cineasta possa traçar seu atraente painel sobre a São Paulo noturna dos anos 40.Babenco, nascido em Buenos Aires, apaulistou-se a ponto de captar com propriedade a amarga poesia da cidade, em especial do seu submundo. Outro "estrangeiro", o carioca Paulo César Saraceni, também se apropriou da paisagem paulistana. Ao Sul do Meu Corpo baseia-se no conto Duas Vezes com Helena, do livro As Três Mulheres de Três PPPs, de Paulo Emílio Sales Gomes, um ícone da cultura cinematográfica de São Paulo. Um filme erótico-político, encravado no tempo (do período anterior à 2.ª Guerra aos anos 70) e no espaço (São Paulo, Campos do Jordão, Águas de São Pedro) para contar uma história que vai além dessa referência, ao sul do corpo (do País), para tratar de um integralista, portanto, um fascista, que descobre ter tido um filho - torturado e morto como guerrilheiro. O filme teve problemas com a censura: na verdade, foi o último filme a ser liberado quando se abriram as comportas do regime militar, no começo dos anos 80.A história, claro, poderia continuar. Surgiu uma nova e importante geração do cinema paulista nos anos 90. Uma geração de grandes mulheres na direção. Tata Amaral poderia ser lembrada com a bela tragédia de Um Céu de Estrelas e o cinéfilo já pode preparar-se para ver de joelhos o maravilhoso Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, a grande estréia anunciada do cinema brasileiro em 2001. São Paulo é personagem de todos esses filmes. Um cinema feito de poesia, realismo e dor.São Paulo: Poesia, Realismo e Dor - De segunda a sexta, às 10 horas, às 12 horas e às 15 horas. Grátis. Memorial da América Latina. Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, tel. 3823-9611. Até 31/1.

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