"Um Céu de Estrelas" reestréia em SP

Um Céu de Estrelas- nome enganosamente poético para um filme que é nitroglicerina pura. A idéia é tirada de um livro de Fernando Bonassi. Como outras histórias do escritor, seu ambiente é o bairro paulistano da Mooca, onde ele se criou. O foco, novamente, está na classe média baixa, e fala dos seus sonhos e temores - que, na verdade, são os sonhos e temores de qualquer um de nós, devidas adaptações feitas. Todos desejam a felicidade no amor, na profissão, alguma segurança e algum amparo.Dalva (Leona Cavalli) é uma cabeleireira que ganhou uma viagem para Miami e está disposta a desfazer um noivado para realizá-la. Víctor (Paulo Vespúcio) é um metalúrgico que abandonou o emprego. Ruma para a casa da ex-noiva, tentando demovê-la da idéia de rompimento. Dalva mora sozinha com a mãe. A casa onde vivem (pequena, discreta, pobre porém correta) será o palco da tragédia, desencadeada pela intransigência de Dalva, pela teimosia de Víctor. Na verdade, nenhum deles tem culpa de nada. Dalva não pode renunciar ao seu sonho - ir a Miami, o que é sintomático. E Víctor (um perdedor, apesar do nome) não pode renunciar à paixão. Estão ambos condenados. Muito dessa paixão radical vem do roteiro (Bonassi, Jean-Claude Bernardet, Márcio Ferrari e a própria Tata). Muito mais vem da realização corajosa, da câmera inquieta, incômoda, que acompanha um casal de atores em estado de graça. Leona e Paulo Vespúcio tiveram, neste filme, seu trabalho mais feliz e também seu batismo de fogo, suportando cenas de dura sensualidade e terna violência. O filme é tributário dessa entrega do elenco. E não apenas do par central. Algumas das cenas mais perturbadoras são vividas pela mãe de Dalva (Néa Simões) que chega em casa e encontra o casal no início da briga.Numa das melhores, mas também mais duras seqüências do cinema brasileiro recente, a mãe, trancada no banheiro, reza compulsivamente, enquanto lá fora o casal prossegue seu caminho de destruição mútua. Sem ser diretamente político, Um Céu de Estrelas contempla em sua dramaturgia todo o espectro do impasse social brasileiro. Está nele o sonho de uma personagem com a suposta terra da promissão e também o desespero de outro com sua falta de horizontes. Está ali o medo da mãe, que nada compreende, e a cegueira da televisão, que entra no final do jogo e registra apenas a superfície da tragédia, passando-a ao público como drama de consumo. Enfim, o filme percorre integralmente um tecido social esgarçado por meio da trajetória de um par em situação terminal. Um huis clos infernal, que permanece na memória cinematográfica do espectador e pode ensinar a ele duas ou três coisas sobre o Brasil contemporâneo.

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