AFP
AFP

Um ano depois de balançar Hollywood, movimento MeToo chega a Bollywood

Indústria de cinema da Índia recebe denúncias de abusos sexuais por parte de diretores e atores famosos

David Asta Alares, EFE

09 Outubro 2018 | 10h00

NOVA DELI — O movimento #MeToo chegou a Bollywood, um ano depois de sacudir os alicerces de Hollywood, com o aumento de denúncias de abusos sexuais. Uma atriz revelou, no final de setembro, ter sofrido uma agressão em 2008.

As denúncias de casos de assédio se multiplicaram pelo Twitter, como ocorreu no ano passado nos Estados Unidos, após a revelação dos escândalos envolvendo o produtor Harvey Weinstein, e provocaram agora a reação de uma ministra, o ultimato de um influente ator e o afastamento de dois famosos comediantes.

"Agora, a campanha MeToo começou e estou muito feliz com isso", afirmou a ministra do Gabinete da União Indiana para o Desenvolvimento da Mulher e da Criança, Maneka Gandhi, em entrevista à agência indiana ANI.

Ela lembrou às vítimas de agressões sexuais que a lei do país permite apresentar uma denúncia "dez anos, 15 anos depois, não importa quando", ao mesmo tempo que denunciou que os abusos sexuais "nunca desaparecem".

Em um programa de TV no final do mês passado, a atriz indiana Tanushree Dutta denunciou que foi agredida, em 2008, pelo renomado ator Nana Patekar, que interpretou um dos papéis principais no filme indicado ao Oscar Salaam Bombay, durante a gravação de uma música para o longa-metragem Horn 'OK' Pleassss.

A atriz afirmou que Patekar a tocou de forma "indecente e desnecessária" com o pretexto de ensinar a ela alguns passos de dança, o fazendo sentir "ultrajada", segundo declarações de Tanushree, divulgadas pela agência PTI.

A acusação não é nova: ela já havia denunciado o caso por escrito na Associação de Artistas de Cinema e Televisão (CINTAA, sigla em inglês), mas Patekar negou publicamente os fatos.

Ao contrário de há dez anos, o caso da atriz ganhou agora impulso nas redes sociais e meios de comunicação, e a CINTAA afirmou em comunicado, no último dia 2, que a organização não agiu corretamente e a acusação de agressão sexual "sequer foi abordada".

Patekar reafirmou sua inocência durante uma entrevista coletiva, onde disse que "o que era verdade há dez anos permanece assim agora e continuará sendo amanhã também".

A crítica de cinema indiana Anupama Chopra reconheceu à Agência Efe que a chegada do movimento feminista estava "pendente há muito tempo" no país asiático.

"Tanushee Dutta se queixou há dez anos e nada aconteceu, mas claramente e felizmente agora vivemos em um momento diferente", disse Anupama, "muito feliz" por ver as mulheres criando coragem de denunciar seus agressores.

Em uma espécie de efeito dominó, a acusação de Tanushree Dutta fez surgir novas denúncias nas redes sociais e revelou outras antigas que passaram despercebidas.

Uma funcionária da produtora Phantom Films acusou de agressão sexual, em 2015, o diretor Vikas Bahl, um dos sócios da empresa e recentemente denunciou a impunidade do cineasta na edição indiana do Huffington Post.

O ator Hrithik Roshan, um dos rostos mais conhecidos do país e que está no elenco de um filme dirigido por Bahl que ainda não estreou, pediu aos produtores que avaliem as acusações e atuem com "severidade" caso fossem verdadeiras.

"É impossível para mim trabalhar com uma pessoa se ela é culpada de uma conduta tão grave", afirmou Roshan, que por enquanto, foi o único ator a ter se pronunciado.

Além do cinema, o grupo de humoristas estabelecidos em Bombaim, "All India Bakchod", foi obrigado a suspender de forma temporária dois de seus membros fundadores e retirou todos os vídeos de um comediante acusado de assediar mulheres na internet, incluindo uma menor de idade.

O grupo informou da saída dos humoristas em comunicado, embora não especificou os motivos.

O MeToo também abalou o mundo do jornalismo e, segundo a emissora de TV indiana NDTV, o redator-chefe do jornal Hindustan Times, Prashant Jha, renunciou depois que uma colega de trabalho o acusou de assédio.

Anupama Chopra ressaltou que não basta que as denúncias de agressão sexual abalem as redes sociais.

"Tem que haver uma consequência real para os homens que pensam que se podem sair dessa. Claramente já não é o caso, portanto se estão produzindo consequências na vida real, e isso é uma muito boa notícia", resumiu a crítica de cinema.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.