"Um Amor de Borges" retrata sensibilidade do escritor

O longa-metragem argentino UmAmor de Borges, que entra em cartaz nesta sexta-feira, foi ovencedor da parte latina do Festival de Gramado do ano passado eJean-Pierre Noher, que interpreta Borges, ganhou a estatueta demelhor ator. Seu diretor Javier Torre resolveu contar a vida deum dos tótens do seu país e tomou-o por seu lado mais ingrato,aparentemente. Borges foi acima de tudo um literato, homem dehábitos metódicos, burguês, regrado, de vida pessoal e amorosamonótonas como um balancete de empresa. No entanto, tal como Torre a conta, esse aspecto dabiografia de Borges passa a ser interessante. O escritor,interpretado com toda a sensibilidade por Noher, é retratadocomo um tipo tímido, esquisitão, arredio, porém dono de um belosenso de humor, depois de quebrado o gelo. Um dia ele conhece acandidata a escritora Estela Canto, no filme, vivida pela atrizInês Sastre. Estela era a antítese de Borges. Desenvolta, experientee com idéias de esquerda na cabeça, deve ter causado impressãono homem tímido e politicamente conservador. O conhecimento deBorges sobre o sexo oposto não cobriria a cabeça de um alfinetee, já quarentão, vivia sob as ordens da mãe superprotetora,Leonor Acevedo de Borges. Quando Borges começou a namorar Estela a mãe se opôs, o que não chegou a ser surpresa, menos aindapara ele. O relacionamento de Borges com Estela era espiritualcomo a de dois anjinhos. Conversavam sobre literatura, passeavampela cidade, liam, freqüentavam aqueles deliciosos cafés deBuenos Aires. Ela bebia uísque; ele, chá. Compreensivelmente,Estela queria mais. Quando decidiu que era hora de fazerem o quetodos os casais costumam fazer, Borges bateu em retirada e foipedir proteção a Leonor. Essa é mais ou menos a história que,contada de outra maneira, poderia ter virado anedota cafajeste.Mas Torre fala de Borges e suas inibições com infinitadelicadeza. Enquanto namorava Estela, Borges escrevia um dos seuscontos mais famosos, O Aleph. O relato fala de uma pequenaesfera de três centímetros que resume em si toda a grandeza douniverso - o aleph seria, para o espaço, o que a eternidade épara o tempo, define o escritor. Não parece acaso que esse textotenha sido escrito por um homem sob efeito da paixão, quepensava ter encontrado a mulher da sua vida. Mas enfim, esteepisódio, como tantos outros da vida de Borges, é mais adequadopara a análise de um psicanalista do que para a crítica de umfilme. Com o caso encerrado - e o conto escrito -, Borges deu omanuscrito de O Aleph para Estela, para que ela o guardassecomo recordação. E ela assim o fez, até a velhice, quando doentee com problemas financeiros vendeu o documento por US$ 20 milpara uma universidade inglesa. Depois da separação, Borges voltou a dedicar-se à mãe.Ou melhor, Leonor pôde voltar a dedicar-se inteiramente ao filho já a esta altura cego. Lia para ele, dava-lhe de comer e sófaltava ajudá-lo a trocar de roupa. Leonor foi uma grande figurana vida de Borges. Estudou para poder acompanhar o filhointelectualizado, deu-lhe amparo a vida toda. Viveu 99 anos eBorges dedicou a ela a primeira edição de suas obras completas,publicada pela Émecé. Esse filme simples nos devolve a figura humana dessegigante da literatura. Torre dirige a história com fluência econcisão. Sente-se que procurou controlar tudo para que nãohouvesse excessos. Um diretor discreto que não pretendeu fazersombra ao seu personagem. Leitores de Borges agradecem.Serviço - Um Amor de Borges (Un Amor de Borges). Drama. Dir.Javier Torre. Arg/2000. Dur. 92 min. 12 anos

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