Ugo Giorgetti reencontra antiga SP

Talvez seja a seqüência maisimpressionante de O Príncipe, novo filme de Ugo Giorgettique estréia nesta sexta-feira. Dois velhos amigos - ambosbêbados - passeiam de madrugada por um ponto feliz da juventudedeles, a Praça Dom José Gaspar, no centro de São Paulo. De umlado, a parte posterior da Biblioteca Municipal; do outro, aGaleria Metrópole, point da feérica boemia paulistana dos anos60. Ao lado, mais ao fundo, ficava o Paribar, meca do encontroetílico, onde os intelectuais da época bebiam e fofocavam noiteadentro. Isso era ontem. Hoje - e é isto que está na tela - apaisagem lembra Sarajevo, Kosovo, Berlim depois da invasão dosrussos em 1945, enfim alguma cidade desolada no fim do mundo edos tempos. Mendigos estendem roupas e tentam se aquecer emfogueiras improvisadas. Gente dorme pelo chão e outros vagam semrumo. Há ruínas, sujeira e rumor de caos. Como plantada pela providência divina, a estátua deDante Alighieri, erguida no meio da praça, e esculpida pelo cocôde pombos, segue impassível no meio daquele pandemônio. Um dosamigos recita - em italiano - a Divina Comédia e, de versoem verso, chega à frase famosa: "Lasciate ogne speranza, voich´intrate". Deixai toda a esperança, ó vós que entrais -dístico que o poeta, acompanhado de Virgílio, diz ter lido noportal do inferno e que poderia, perfeitamente, servir deepígrafe ao filme de Giorgetti. Mas a cena mais impressionante pode ser também a maiscontestada - e já existe quem fale em exagero. Ou tire do bolsoa expressão "estética da miséria", conceito prêt-à-porter queserve de explicação a cada vez que a crítica não gosta do filmepor algum motivo e se sente incapaz de justificar racionalmentea avaliação. Giorgetti se defende: "Fui até discreto nessafilmagem." Diz o diretor que quando chegou ao local reclamoucom a produção. O cenário "montado" - com varais de roupaatravessando de lado a lado aquele antigo santuário daintelligentsia paulistana - lhe pareceu exagerado, inverossímil."Me responderam que não haviam preparado nenhum cenário; quetudo pertencia aos atuais moradores da praça - e era maisprudente não mexer em nada", diz. Essa, um pouco mais um pouco menos, é a São Paulo queGustavo (Eduardo Tornaghi), chamado pelos amigos de "opríncipe" reencontra depois de 20 anos de ausência. Amigos: elevolta justamente para reencontrá-los, depois de todo esse tempomorando em Paris. Volta também para ver o que aconteceu com umsobrinho, brilhante professor de História, agora internado em umsanatório. E, como ninguém é de ferro, volta também para ver oque foi feito de uma antiga namorada que deixou por aqui.

Agencia Estado,

08 de agosto de 2002 | 15h33

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