Ugo Giorgetti adota estrutura teatral para retratar imigrantes

Destaque da Mostra SP, 'A Cidade Imaginária' mostra que para o italiano a viagem é, antes de tudo, miragem 

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2014 | 18h41

O que seria São Paulo para imigrantes vindos da Europa sem qualquer informação objetiva sobre o país que adotariam? Essa é a situação criada por Ugo Giorgetti em A Cidade Imaginária, breve (52 minutos) e denso filme que tem por personagens imigrantes italianos a bordo de um navio, no final do século 19.

Os passageiros, em si, já compõem um microcosmo da imigração. De camponeses analfabetos, em busca apenas de melhores condições de vida, a anarquistas que viriam implantar ideias revolucionárias no território virgem da América, eles terminaram a viagem e o navio se encontra ancorado nas proximidades do porto de Santos, onde desembarcarão e de onde seguirão para São Paulo.

O que é São Paulo? Terra da oportunidade para uns, misterioso e labiríntico território para outros, cercado de índios albinos que ameaçam seus habitantes para outros. Há algo de mítico em tudo isso, na cidade rodeada de sombras, ameaças e, em seu núcleo, a esperança. 

Todo descendente de imigrantes – e Ugo é um deles – conhece histórias parecidas. A terra de destino é soma de temores e desejos. A própria ignorância do que seja fomenta a imaginação às vezes desvairada e que encontrará seu limite no contato direto com a realidade. Mas A Cidade Imaginária é um filme da expectativa e não (ainda) da desilusão.

No fundo, celebra a coragem um temerária dos viajantes que saem, muitas vezes com as famílias inteiras, ao encontro de algo do qual não fazem qualquer ideia. Com A Cidade Imaginária, Giorgetti avança em seu estudo cinematográfico da cidade – já retratada em filmes como Sábado, Boleiros e O Príncipe, entre outros trabalhos. A estrutura teatral dessa nova página sobre São Paulo parece perfeita para retratar a cidade que não se vê e da qual pouco se sabe, a não ser por boatos, quer dizer, por palavras. Para o imigrante, seu destino é, antes de tudo, miragem.

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