TV paga exibe clássicos de Godard

Revolucionário, o francês Jean-Luc Godard realizou grandes filmes que mudaram o cinema. Estética, política, narração, tudo mudou depois dele. Alguns desses filmes-faróis de Godard estão entre as maiores e mais influentes realizações artísticas do século - Acossado, Viver a Vida, Pierrot le Fou (que no Brasil se chamou O Demônio das Onze Horas), Week-End à Francesa. Reconheça-se a importância de cada um e a de todos esses filmes, mas Godard não fez nada que seja visualmente mais bonito do que Passion. O filme de 1981 é inédito no País. O ineditismo está para acabar-se. Se você é cinéfilo de carteirinha e assina a TV paga tem, amanhã, um compromisso inadiável com o Eurochannel. Como vem fazendo nas quartas-feiras de junho, o canal europeu da TVA anuncia mais um programa triplo dedicado a Godard. Passion é a cereja desse bolo raro. Passa às 22 horas. Mas não são menos atraentes os outros dois filmes que completam o madrugadão Godard - Tempo de Guerra, às 23h30, e Histoire(s) du Cinéma, à 1h. Tempo de Guerra, Les Carabiniers no original, é quase sempre definido como o mais rosselliniano dos filmes de Godard. É sabida a influência do mestre do neo-realismo sobre o diretor francês. O próprio Godard sempre assumiu a filiação, que vem pela via da desdramatização do roteiro de Romance na Itália (Viaggio in Italia). A influência de Rossellini manifesta-se no baixo custo da produção, na ausência de astros e até mesmo na textura da fotografia em preto-e-branco.Nesse sentido, Tempo de Guerra é assumidamente pobre. Mas se há um filme pobre que também é ambicioso é esse. Os carabineiros do título original são quatro - chamam-se Ulisses, Miguel Ângelo, Vênus e Afrodite. Godard vai às fontes da mitologia para atacar a guerra - o tema desse filme rodado em terrenos vagos do subúrbio parisiense. Mais do que a Rossellini, é a Brecht que Godard presta tributo - é seu filme mais brechtiano, no sentido de que assume, tanto quanto é possível fazê-lo no cinema, o diastanciamento crítico.Histoire(s) du Cinéma não revela, como o título pode sugerir, um Godard enciclopedista. Ele não conta uma história linear do cinema. Inventa histórias, usa fragmentos de filmes que coloca em cena por meio de uma montagem sonora e visual tão elaborada quanto complexa e eficiente. E Passion é, ao mesmo tempo, um filme de amor à pintura e à música. O começo mostra uma sucessão de planos aparentemente desconexos - uma linha branca que divide o céu, um concerto para a mão esquerda, um título - Passion -, uma mulher que puxa uma carruagem, gritos, carros, um piano, o ruído de uma máquina. "O que significa essa história?", é a voz do produtor (Laszlo Szabo). É um leitmotiv ou um lamento. Volta outras vezes no filme.Godard recorre à metalinguagem - a fórmula do filme dentro do filme. Contrapõe o set à fábrica, o diretor ao dono da fábrica, a atriz à operária. Os operários são tiranizados pelo patrão, os atores pelo diretor. Como motivo recorrente, entra a pintura. Os quadros viram cinema, reconstituídos por meio de tableaux-vivantes. Um crítico já escreveu que Godard, nesse filme, trabalha simultaneamente a analogia e a literalidade. Esse mesmo crítico achou sua definição para o cinema assistindo a Passion. É o combate de Prometeu contra a matéria."Passion". França, 1981. Direção de Jean-Luc Godard. No Eurochannel, às 22 horas

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