"Tururu" expõe as muitas faces da mulher

Foi um filme que ela fez com ocoração. Florinda Bolkan, a mais internacional das estrelasbrasileiras, diz que poderia ter estreado na direção com umfilme sobre o sertão cearense. Embora nascida em Uruburetama, naregião serrana do Ceará, ela conhece o sertão e sua paisagemhumana. Escolheu falar sobre a nova urbanidade cearense. Partiude uma constatação: Fortaleza mudou muito desde que ela foitentar a sorte na Europa. Ela encontra ali, hoje, mulherescosmopolitas, nem um pouco diferentes daquelas com as quaisconvive em Roma ou em sua casa em Bracciano. Dessa vontade defalar sobre mulheres urbanas nasceu Eu não Conhecia Tururu,que estréia nesta sexta-feira.É um filme sobre mulheres, feito por uma mulher. Possui defeitosgraves, mas revela uma sensibilidade, uma vontade de falar sobrea diversidade afetiva e sexual que pede generosidade para suasfalhas. Florinda talvez ainda não saiba muito bem comoexpressar-se no cinema, embora tenha trabalhado com diretores doporte de Luchino Visconti, Elio Petri e Vittorio De Sica, mas oque ela quer dizer certamente não é irrelevante.Tururu conta a história de quatro irmãs. Logo no começo, umadelas, interpretada por Maria Zilda, recebe telefonemas deoutras duas, a própria Florinda e Ingra Liberato, que estãochegando de diferentes lugares. Encontram-se no aeroporto etomam o rumo do interior, onde mora a mãe delas. Vão reunir-separa a festa de casamento da quarta irmã, Suzana Gonçalves.Representam, todas, diferentes facetas desse ser ao mesmo tempofascinante e misterioso, a mulher. O que querem as mulheres?Segundo Florinda, em Tururu, querem amor, querem casar-se,querem homens.Nem todas. A própria Florinda faz uma lésbica, afetivamenteligada a uma garota chamada Selvaggia, filha de seu ex-marido.Esse nome quer dizer alguma coisa. A selvagem confronta apersonagem da atriz e diretora com uma urgência irrestrita. Asoutras mulheres tentam compensar-se como podem. Suzana casa-secom um homem mais jovem, Ingra liga-se a um menino carente, aquem tenta ajudar, Maria Zilda divide seu desamor com ocostureiro gay Dodô, criado pelo ator Fernando Alves Pinto.Embora seja um filme de mulheres, Florinda admite que seupersonagem preferido é Dodô. O filme não é autobiográfico,embora esteja cheio de falas e situações que ocorreram com elaou pessoas próximas. Dodô é o paradigma dos gays que conheceu.Sobre ele, Florinda diz uma frase forte: "Pier-Paolo Pasolininão é assassinado só em Óstia; nas praias do Ceará, também."Diz que não escolheu fazer esse filme, foi escolhida por ele.Começou a escrever e a coisa foi tomando forma. Um retrato defamília, mas não um painel amplo. Um raconto, usa a palavraitaliana para designar as narrativas intimistas e curtas. Tururué um nome mágico, mítico. Evoca uma cidade vizinha, na qualpassava o trem. Conhecer Tururu quer ser uma metáfora para seembarcar no trem da vida.Eu não Conhecia Tururu. Comédia de costumes. Direção de FlorindaBolkan. Br/2000. Duração: 100 minutos. Espaço Unibanco 3, às 14horas,16 horas, 19h30 e 21h40 (segunda não haverá a últimasessão).

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