Turquia mostra pontos de encontro com o Brasil em Locarno

Isso aparece no cinema turco mostrado no Festival, com filme que se completa com co-produção européia

Rui Martins, especial para o Estado,

08 de agosto de 2008 | 13h17

Apesar da grande diferença, seja idioma, cultura, religião, a Turquia tem pontos de encontro com o Brasil, pelo menos nas artes. Embora tenha sido um segredo bem guardado, agora que Roberto Freire morreu e que seus sobreviventes são sexagenários, pode-se contar. Quando nos anos 60, o grupo de teatro Tuca, tendo à frente Silney Siqueira, ganhou o primeiro prêmio em Nancy, com a peça Morte e Vida Severina, musicada por um adolescente chamado Chico Buarque, prêmio entregue pelo que viria a ser ministro da Cultura francesa Jack Lang, causando reboliço entre os dirigentes da ditadura militar brasileira, faltou contar um detalhe. Aquele mesmo primeiro prêmio, foi dividido com um grupo de teatro turco. Hoje o cinema turco vive um momento comparável ao do nosso cinema novo, pelo que deixa entrever seu cinema mostrado em Locarno, com um filme que se completa com uma co-produção européia. Partindo-se da decepção soviético-socialista ao sentimento atual de mal estar europeu, se chega à uma mistura de desemprego, relocalização das fábricas nos países pobres do Leste, prostituição vinda do Leste e a perseguição aos imigrantes pela recente diretiva do retorno, que visa expulsar 8 milhões de estrangeiros. O filme turco é Sonbahar ou Outono, de Ozcan Alper, cineasta de 35 anos, estreante no longa-metragem. Uma frase domina o roteiro - você queria lutar pelo socialismo e acabou perdendo seus melhores anos da vida na prisão. Ela é pronunciada por uma prostituta georgiana, na cama com o turco Yussuf, que acaba de ser libertado depois de dez anos de prisão, afetado mortalmente nos pulmões. A frase frustrante poderia ser a tônica principal na história do jovem Yussuf, pesquisador em Física, preso nos anos 90, em Istambul manifestando pela democracia. Mas outra frase de fecho, ao terminar o filme abre as portas para as esperanças, ao ser dedicado aos jovens e aos seus ideais. A história é de um retorno à montanhosa cidade natal, sem glória mas com doença e morte próximas. De todos os amigos da infância e juventude só um restou, os outros partiram em busca de vida melhor na capital. O pai morreu, a mãe está velhinha, a antiga namorada já se casou. Yussuf tosse à noite, passa os dias deitados, mas, vez ou outra vai se encontrar com o único amigo. Na pequena livraria local, conhece Eka, prostituta vinda da vizinha Geórgia em busca de trabalho, leitora de romances russos e que identifica Yussuf como um dos personagens, uma paixão impossível. A terra prometida O outro filme, Terra Prometida em Lugar Nenhum, é uma co-produção européia sobre o sonho de um grupo de kurdos de furar o bloqueio anti-emigração dos europeus e chegar à Inglaterra, onde, na época das filmagens ainda havia uma lei menos severa para os emigrantes. Faz parte do mesmo filme, um jovem executivo que vai a Budapeste preparar a transferência de uma empresa francesa, em busca de mão-de-obra barata, sob manifestações de protestos dos operários franceses. E também uma estudante francesa com sua câmera, em viagem de férias.  Para os imigrantes, a Europa é uma terra prometida, atraídos pela possibilidade de participarem como empregados de multinacionais. Porém, a consciência européia de um grande país ainda não existe, diz o diretor Emmanuel Finkiel, por enquanto existe só o conceito e o sentimento de ser europeu vai ainda levar tempo. Por isso, os próprios europeus se sentem como exilados dentro do seu próprio continente, afirma o diretor que já fez um filme sobre o êxodo de cinco famílias judias.  O diretor trabalhou como assistente para grande cineastas como Kieslowski, Godar e Tavernier. Seu filme é um sério concorrente ao Leopardo de Ouro.

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