Divulgação
Divulgação

'Turnê é ato de amor à mulher'

Dirigido e interpretado por Mathieu Amalric, o filme recebeu prêmios importantes no Festival de Cannes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 Abril 2011 | 07h00

Que Burlesque, que nada. Por mais divertidas que sejam, eventualmente, Christina Aguillera e Cher, o verdadeiro burlesco desembarca hoje na cidade com o filme francês Turnê. Dirigido e interpretado por Mathieu Amalric - o vilão de Quantum of Solace -, recebeu prêmios importantes no Festival de Cannes do ano passado - melhor mise-en-scène (direção), para o júri oficial presidido por Tim Burton, e melhor filme segundo a Fipresci, Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica.

Diante de Turnê, o espectador, principalmente se for cinéfilo de carteirinha, terá a sensação de assistir a um filme de John Cassavetes invadido por mulheres saídas de uma daqueles extravagância típicas de Federico Fellini. Embora não negue sua admiração nem por Cassavetes nem por Fellini, Amalric conta que a origem de Turnê está num texto de sua compatriota, a escritora francesa Colette.

"Colette era atriz e, por volta dos 30 anos, participou de shows", ele relatou na coletiva de seu filme, em maio passado. "Suas interpretações foram consideradas muito escandalosas, na época. Eram pantomimas, mas o que causava sensação é que ela se apresentava com pouca roupa. Ela registrou tudo isso num texto chamado L’Envers du Music Hall, O Reverso do Music Hall, que sempre me fascinou. Eu procurava um equivalente contemporâneo da sua liberdade de estilo, e escrita. Não encontrava. Até que num dia topei com uma reportagem sobre o movimento do American New Burlesque. Nem sabia que existia, mas a conexão com o que Colette escrevera foi imediata na minha cabeça. Também sempre fui atraído pela figura do produtor cultural, seja de cinema, teatro ou shows. Consegui me transportar para o papel do produtor e foi assim que tudo começou."

Na trama de Turnê, o próprio Amalric faz o empresário que leva um grupo do American New Burlesque para a França. Ele está num momento crítico de sua vida e carreira. A situação familiar é complicada, deve dinheiro, perde o teatro no qual esperava fazer a série de espetáculos. Mas as mulheres - gordas, sexys, belas e desinibidas - o empurram a seguir em frente. There’s no business like show business. Amalric já era um habitué em Cannes, mas no ano passado sua presença na Croisette revestiu-se de um caráter todo especial, ele era o primeiro a admitir.

"Já vim muitas vezes aqui, mas como ator. Aos 17 anos, queria fazer cinema por trás das câmeras. Fui assistente de direção, de montagem. Desempenhei muitas funções, porque o que queria era trabalhar no cinema, eventualmente fazer meus filmes. Arnaud Desplechin me inventou como ator e me deu projeção. A primeira vez que vim aqui foi com ele, por Comment Je Me Suis Disputé (Ma Vie Sexuelle). Nunca desisti de voltar aqui como diretor, o que faço agora. Isso é tanto mais importante porque todas essas mulheres que me acompanham - e ele apontava suas ruidosas colegas de trabalho, na mesma mesa - também não são atrizes."

Cannes pode ser intimidante para um artista e, naquele momento, Amalric não sabia que a premiação final lhe reservaria boas surpresas. Mas, na arte e na vida, ele fornecia sua receita - "Quando se tem humor, e encara até as dificuldades como parte de toda experiência, nada pode ser tão ruim." Ele confessa que não se aproximou do seu material pela vertente do drama psicológico. "Não foi um filme sofrido de fazer. Queria testar essas mulheres, saber até onde elas eram capazes de ir e elas foram muito mais longe do que imaginava em meus sonhos. Esse filme nasceu da cumplicidade e acho que esse, de alguma forma, terminou sendo o seu tema."

Comédia, drama? "Para mim, é muito mais uma celebração da vida. Acho que as mulheres têm essa capacidade. Meu personagem começa desesperado, sem perspectivas. É a vida como ela é, uma m... E aí elas transformam tudo. Turnê não deixa de ser a minha celebração, um ato de amor às mulheres, a todas as mulheres, que são belas, cada uma de seu jeito, no seu estilo. Já pensaram se a beleza tivesse de obedecer a um único padrão? Como este mundo poderia ser chato?"

Mais conteúdo sobre:
Turnê Mathieu Amalric Cannes

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.