Aline Arruda/Divulgação
Aline Arruda/Divulgação

Tumulto marca premiação no Festival de Brasília

O grande vencedor da noite foi o filme mineiro 'O Céu sobre os Ombros', da produtora Teia

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 de dezembro de 2010 | 17h00

É pena que a vitória de um filme tão bonito quanto ousado - o mineiro O Céu sobre os Ombros, da produtora mineira Teia, tenha perdido o brilho em razão do vazamento da premiação na internet. Esse tipo de coisa, quando acontecia no passado, sempre prejudicava os festivais. Quem já sabe que ganhou fica sem a emoção da expectativa; quem perde vai embora e esvazia a festa. Hoje, na era da comunicação instantânea e multimídia, o que era ruim tornou-se catastrófico. A notícia entra num site e imediatamente outros o seguem. Todo mundo a recebe em seus laptops, celulares, Iphones da vida que, claro, permanecem ligados 24 h por dia e em qualquer lugar.

 

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O que aconteceu, afinal? Simples: a assessoria do festival mandou a lista antecipadamente às redações para que os jornais pudessem publicar o resultado no dia seguinte. O horário de fechamento dos jornais impressos não permite que esperassem pelo fim do anúncio dos vencedores. Havia embargo para o online até o final da cerimônia. Esse embargo foi quebrado por um portal e a festa deu com os burros n’água. Os assessores do festival Carolina Moraes e Michel Medeiros subiram ao palco e declararam para a plateia: "Pedimos para o portal Uol tirar a notícia do ar, para respeitar o embargo, mas fomos ignorados."

 

Explicações. Logo no início da premiação, um rumor começou a crescer no Cine Brasília. Pessoas da plateia anunciavam os prêmios antes que a dupla de apresentadores o fizesse. Uma das premiadas, a produtora Andréa Glória, do curta Braxília, interpelou um dos apresentadores, Sérgio Fidalgo, que acumula o cargo de coordenador do festival, e exigiu explicações. Nervoso, Fidalgo não fez jus ao sobrenome e disse à produtora que encerrasse a performance no palco. Depois, mais calmo, pediu desculpas públicas a Andréa.

A cerimônia prosseguiu em clima tenso. Como todo mundo já sabia quem havia vencido e perdido, toda a emoção se perdeu ou parecia fingida. A cada entrega de prêmio, parte da plateia aproveitava para xingar o grupo de comunicação responsável pelo vazamento. O produtor do filme vencedor, o cineasta Helvécio Marins, disse ao microfone que esse grupo era notoriamente "contra o cinema brasileiro". Alguém na plateia gritou: "Eles são contra o Brasil." Final mais melancólico não poderia haver.

 

Mais resultados. A Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande, ficou apenas com os prêmios de ator coadjuvante (Rikle Miranda) e direção de arte (Gustavo Bragança). O filme mistura gêneros de forma criativa, no trabalho com o imaginário de uma adolescente carioca descontente com o tempo e a cidade em que vive. Tem qualidades, embora o filme anterior da dupla, A Fuga da Mulher Gorila, seja mais inquietante, embora de realização mais precária.

De forma correta, o júri, formado pela romancista Ana Miranda, pelo pesquisador André Brasil, pela atriz Bidô Galvão e pelos cineastas Anna Muylaert, Erik de Castro, Antonio Carlos da Fontoura e Kleber Mendonça, ignorou o documentário Vigias, de Marcelo Loredello, de fato muito fraco. Último filme a ser apresentado em concurso, mostra o cotidiano de vigilantes noturnos dos edifícios de classe média do Recife. A ideia não é ruim, afinal os vigias se encarregam da segurança mas ao mesmo tempo são argutos observadores da classe social que os emprega e à qual não pertencem. No entanto, o filme se conforma com a inteligência da fala de alguns deles e não explora mais a fundo esse contraste. Ficou a impressão de filme de pesquisa e realização preguiçosas. Foi o único longa a sair de mãos abanando.

 

Sim, porque, também ignorado pelo júri oficial, Amor?, de João Jardim, faturou o prêmio do público. Numa imagem perfeita do que foi este desfecho de Festival de Brasília, nenhum representante do filme se apresentou para receber o troféu.

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