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'Tudo Vai Ficar Bem', de Wim Wenders, divide espaço com alguns de seus clássicos

Caixa Belas Artes exibe os melhores filmes do diretor até dia 16 de março

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2016 | 20h05

No Festival de Berlim, no ano passado, Wim Wenders contou como tudo começou. “Participei de uma premiação do Sundance e nosso grupo resolveu premiar o roteiro de um jovem norueguês muito talentoso, Bjorn Olaf Johannesson. Gostei do diálogo, do título, Nowhere Man. Ao lhe entregar o prêmio, disse que me enviasse quando tivesse outro roteiro pronto. Confesso que me esqueci. Passaram-se dois, três anos e Bjorn me mandou o roteiro de Everything Will Be Fine. Gostei tanto que acionei meu produtor e resolvemos levar o projeto adiante.” Wenders está falando de Tudo Vai Ficar Bem, seu novo longa que estreou na quinta, 10, em São Paulo. Simultaneamente, o Caixa Belas Artes resolveu fazer um ciclo e todo dia, até 16, vai exibir, sempre às 18h20, obras importantes que ajudaram a esculpir a fama do autor alemão.

Você já perdeu Estado das Coisas, mas ainda tem tempo de (re)ver Movimento em Falso, Amigo Americano, Paris Texas, Tokyo-Ga, Asas do Desejo e Buena Vista Social Club. Todos esses filmes – e outros – ajudaram a construir o mito de Wenders como uma das referências do pós-moderno no cinema. Poucos diretores questionaram tanto as imagens, num mundo saturado delas. Wenders acumulou prêmios, prestígio. E aí, no começo dos anos 1990, as coisas começaram a se complicar. Ele já tivera problemas com Francis Ford Coppola, que produziu Hammett, sua biografia romantizada do escritor Dashiell Hammett. Os problemas aumentaram quando os produtores trucidaram Até o Fim do Mundo. Wenders passou a seguir uma trajetória errática. Fez documentários, incluindo O Sal da Terra, sobre Sebastião Salgado, em parceria com Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotógrafo, incorporou o 3-D (em Pina).

Algo agora se passa – a versão do autor, na montagem que ele queria, fez com que Até o Fim do Mundo fosse resgatado numa edição recente da revista Cahiers du Cinéma, que muitos ainda consideram uma das bíblias do cinema de autor em todo o mundo. Em chave intimista e ficcional, Wenders voltou à terceira dimensão, e o retorno dá-se justamente com Tudo Vai Ficar Bem. Wenders conta a história, agora em chave de pura ficção, de outro escritor. Thomas/James Franco provoca um acidente com morte, que terá desdobramentos. A vítima é um dos filhos de Charlotte Gainsbourg.

Em Berlim, o diretor disse o que o atraiu no roteiro de Bjorn Olaf Johannessen. “Interessou-me menos o fato de Thomas sentir ou não culpa, ou de ser culpado ou não, e muito mais o fato de incorporar a tragédia à sua criação, escrevendo um livro sobre ela. Tem um diálogo decisivo para mim, quando alguém diz a Thomas que a literatura dele melhorou muito depois do acidente. Charlotte, o irmão da vítima precisam reorganizar-se, superar a própria dor.”

Wenders explicou que já se havia inspirado em tragédias pessoais de sua família. “A base da personagem de Jeanne Moreau em Até o Fim do Mundo foi uma tia minha que ficou cega. Creio que nada me influenciou tanto para que eu me questionasse sempre sobre o significado e a importância das imagens. O bom do roteiro de Bjorn foi que, pela primeira vez, me permitiu abordar o tema com distanciamento.”

E Wenders acrescentou que, depois de muito tempo, ele está voltando a acreditar nas imagens. “Vivemos uma era de saturação, de imagens vulgares, que não dizem nada, e o cinema contribui muito para isso. A fotografia e a pintura têm me ajudado muito”, reflete o diretor. Particularmente importante foi a descoberta de Andrew Wyeth, um pintor norte-americano muito ligado à terra, ao concreto, ao cotidiano. “Ninguém pinta a neve como ele, e a neve, desde o começo, é decisiva em Tudo Vai Ficar Bem.”

Na produção recente de Hollywood, o 3-D virou a ferramenta das animações e dos blockbusters. Wenders a utiliza para filmar a intimidade. “A princípio, pensei que o 3-D me permitiria recriar a desorientação espacial e emocional dessas pessoas, projetando o espectador numa espécie de turbilhão. Depois, vi que não. Com duas câmeras que escrutinam o rosto dos atores, não há espaço para a falsidade.”

Wenders pode estar empolgado com seu elenco – Rachel McAdams também marca presença –, mas há um problema nisso tudo. O filme tem saltos de tempo. Passam-se quatro anos, mais quatro, mais dois. Os dez anos não passam pelo rosto de James Franco. Um ator mais maduro talvez ampliasse a voltagem emocional, e o filme talvez ficasse melhor.

'Paris, Texas' oferece o melhor do autor alemão

Em seus primeiros filmes, Wim Wenders revelava um fascínio todo especial pela estrada e pelas deambulações. Movimento em Falso baseia-se em Goethe, Amigo Americano adapta livremente Patricia Highsmith e na essência de Paris, Texas está Homero, a Odisseia. Ou a anti-Odisseia. Travis, como Ulisses, parte com o filho em busca da Penélope que não esperou por ele. Percorre paisagens dos EUA que o western esculpiu no inconsciente do público de todo o mundo.

Paris, Texas foi um apogeu - o maior Wenders? Tudo depois é menor. O tributo a Yasujiro Ozu (Tokyo-Ga) e aos anjos sobre Berlim (Asas do Desejo). Muitos críticos contestam Buena Vista Social Club - os cubanos bestificados diante das vitrines de Nova York. O movimento falseou de verdade, mas houve um tempo em que Wenders foi grande. 

 

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