Tudo pronto para a volta de Olga Benário

Foram quase dez anos de esforços, mas a produtora e roteirista Rita Buzzar tem, enfim, motivos para comemorar - no dia 20, estréia em cinemas de todo o Brasil o filme que ela adaptou da biografia de Fernando Morais, Olga. Antes disso, o filme terá duas sessões importantes - será exibido no Festival do Cinema Judaico de São Paulo, que começa dia 9, e também na abertura do Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro, dia 16. Olga já teve uma terceira sessão especial - em Brasília, para o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Fernando Morais esteve presente. Já havia visto Olga como espectador - e gostou. Na segunda vez, viu com olhos de autor, para conferir a qualidade da adaptação - e continuou gostando (muito). Morais também tem motivo para comemorar. A estréia de Olga quebra um ciclo de maldição. Um dos filmes mais polêmicos produzidos no País, nos últimos anos, também se baseia num livro dele - Chatô reconstrói a trajetória do lendário Assis Chateaubriand, um dos mais famosos jornalistas brasileiros. Um marinheiro de primeira viagem - o ator Guilherme Fontes - adquiriu os direitos de Chatô e iniciou uma das produções mais conturbadas da história do cinema do País. Chatô, o filme, esteve no centro de várias denúncias de corrupção, usadas para atacar as leis de incentivo que são, hoje, a grande ferramenta de financiamento do cinema brasileiro. A boa nova é que Chatô também está pronto. Morais põe a mão no fogo por Guilherme Fontes - "Os problemas foram decorrentes de sua inexperiência. Já disse para minha filha que, se um dia forem provadas as denúncias de corrupção contra o Guilherme, eu vou ficar tão surpreso quanto ela ficaria se um dia fosse eu o alvo dessas denúncias." Serão dois e talvez três filmes baseados em livros de Fernando Morais a ocupar as telas do Brasil quase ao mesmo tempo ou em rápida sucessão. O terceiro será Corações Sujos, que Cacá Diegues vai produzir e Vicente Amorim dirigir. "Já li o primeiro roteiro deles e ficou muito interessante. Criaram uma estrutura inteligente que eu acho que vai funcionar bastante na tela." Por mais que elogie Amorim e defenda Guilherme Fontes, Morais não tem dúvida de que Olga é o mais cinematográfico dos três. Rita Buzzar concorda. Estudante de cinema, ela teve um choque ao ler o livro de Fernando Morais sobre Olga Benário, a jovem judia que se tornou revolucionária, teve uma filha de Luiz Carlos Prestes e morreu num campo de concentração nazista, para onde foi enviada pela ditadura de Getúlio Vargas. "É uma história triste. Tem opressão, resistência, campo de concentração, nazismo, final infeliz - a história de Olga é daquelas que não podem ter final feliz. Teria tudo para dar um filme cabeça, mas a Rita e o Jayme (o diretor Jayme Monjardim) fizeram um filme maravilhoso. Olga é emocionante sem ser piegas. É até um filme muito duro", comenta Morais, em entrevista realizada em seu apartamento na Alameda Rio Claro. Há uma bela vista da cidade daquele 10.º andar. Não por acaso, a região paulistana chama-se mesmo Bela Vista e o apartamento dá para o Bixiga. "De manhã cedo pode-se ouvir o canto de galos por aqui. As pessoas ainda criam galinhas em São Paulo", diz o escritor. Morais filma um charuto (dos bons). O assunto volta para Olga. Ele está cheio de expectativa em relação à próxima estréia. "O livro foi editado em 21 países e teve edições clandestinas em outros. Isso representa o quê? Um milhão e pouco de livros. É outra escala de grandeza. Olga tem potencial para multiplicar muitas vezes esse número, atingindo um público muito maior que só chegará a conhecer a história por meio do cinema." Rita Buzzar pede calma ao escritor. "Não me assusta, Fernando. Não estamos trabalhando com projeções irreais. Fizemos esse filme sempre com o pé no chão. Nós (o que equivale dizer - ela, o diretor Monjardim, a distribuidora Lumière) já ficaremos supercontentes com 1,5 milhão de espectadores." Não é, de qualquer maneira, uma expectativa modesta. Baseia-se no fato de que o filme é adaptado de um livro de sucesso e tem um elenco de notáveis. Rita admite que escreveu a personagem de Anita Leocádia, a mãe de Luiz Carlos Prestes, sempre pensando em Fernanda Montenegro. Quando teve a própria Fernanda no set, "foi como um sonho". Morais não poupa elogios a Caco Ciocler, que faz Prestes. "Tive vários encontros com o Velho, até por causa do livro, e acho que nunca o vi dar uma risada. Prestes tinha um sorriso irônico, um meio sorriso. Caco assimilou isso muito bem. Com a maquiagem, que criou aquelas entradas no cabelo, ficou perfeito." Elogios a Camila Morgado, que faz Olga - Morais diz que Fernanda Montenegro e Caco Ciocler ainda guardam uma semelhança física com seus personagens. Camila não tem nada a ver, fisicamente, com a Olga da realidade, mas ela cola à personagem de forma impressionante. "É uma questão de temperamento", ele diz. Rita destaca a disciplina e o empenho da atriz. Morais aproveita para mostrar a nova capa do livro, que chega este fim de semana às livrarias. A imagem de Camila Morgado substitui a da própria Olga, nas edições precedentes. O roteiro filmado foi o sétimo que Rita escreveu. Ela já vinha trabalhando no projeto (desde 1995) quando o diretor Jayme Monjardim entrou na dança. Monjardim começou no cinema, com um curta sobre sua mãe, a cantora e compositora Maysa, antes de ser cooptado pela televisão. Tornou-se um dos grandes diretores da TV brasileira. "Jayme introduziu o plano geral na TV", lembra Rita. Morais concorda - "É verdade, antes dele tínhamos só aqueles planos próximos." Rita já havia escrito seis roteiros. Monjardim incentivou-a a ousar mais e mais. "Eu tinha receio do que era possível fazer. Ele me dizia que não havia limites. Com a assistência do Jayme, o roteiro ficou melhor." É uma narrativa clássica, ela define. Como toda adaptação, implicou em escolhas. "Tive de condensar personagens, de tomar licenças poéticas para adensar os conflitos entre as personagens", diz Rita. Morais explica o que isso quer dizer. "Por exemplo, há uma tensão permanente entre Prestes e Filinto Müller, o chefe da polícia política do Estado Novo que entregou Olga aos nazistas. Não há registro de que tenham se encontrado na prisão. Eu posso criar essa tensão por meio de um jogo de palavras. Rita criou um encontro que não houve e isso dá uma força muito grande ao filme." Outro exemplo - a Coluna Prestes daria, por si só, um filme inteiro. "Rita reduziu-a a uma frase, apenas. Virou só uma referência no diálogo." No primeiro roteiro, a história daria um filme de 3h30min. Ficou em 2h20. A idéia inicial de Rita era filmar uma parte na Alemanha e, por isso, ela tentou uma co-produção com os alemães. "Mas eles queriam um diretor alemão e isso era fora de cogitação para mim." Ela sempre pensou em Olga como um filme brasileiro, feito por um diretor brasileiro. Suou a camiseta para levantar a verba do orçamento de R$ 7 milhões. O filme pronto custou um pouco mais - R$ 8 milhões, mas a diferença não veio pelas leis de incentivo. Foi dinheiro bom, como se define o dinheiro de investidores que não deduzem do Imposto de Renda. Olga foi inteiramente filmado no Brasil. Tudo, até o campo de concentração, foi recriado em estúdio, no País. Foi uma decisão tomada em parte para reduzir custos, mas só em parte. "Olga tem a cara do cinema brasileiro atual", diz a roteirista e produtora. "Um filme dessa ambição e desse esforço ilustra o desenvolvimento dos vários setores de criação do cinema nacional", ela explica. Morais destaca o rigor visual. "É um filme preto-e-branco em cores. Às vezes, você pensa estar vendo um filme neo-realista em preto-e-branco, mas aí percebe um vermelho e vê que é colorido", diz o escritor. A referência ao neo-realismo cala fundo em Rita. Ela descobriu sua vocação e decidiu que queria fazer cinema ao assistir a Rio 40 Graus e o clássico de Nelson Pereira dos Santos é um filme de inspiração neo-realista. Rita se prepara agora para outra produção que promete fazer história. Comprou os direitos de adaptação de Budapeste, de Chico Buarque. Os livros de Chico estão sendo todos vertidos para o cinema, mas Estorvo, de Ruy Guerra, e Benjamin, de Monique Gardenberg, não são exatamente filmes fáceis, mesmo que o segundo seja mais palatável do que o primeiro. Fernando Morais brinca com Rita - "Ela vai adaptar o Chico porque adora uma encrenca."

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