'Tudo Por um Furo' é incorreto e vulgar, mas faz público rir

Apatow é um cínico que não está interessado em celebrar valores tradicionais

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 de fevereiro de 2014 | 03h00

Judd Apatow virou uma grife da comédia de Hollywood. Publicações como Cahiers du Cinéma o têm em altíssima conta, no mesmo plano – para não dizer um degrau acima – de Woody Allen. Mas ele está longe de ser uma unanimidade. Em filmes como O Virgem de 40 Anos e séries como Freaks and Geeks e Undeclared, ele tem feito o público rir de sua geração – homens na faixa dos 40 que ainda não amadureceram ou andam à deriva na vida. É um humor incorreto, para se dizer o mínimo.

A sequência de A Lenda de Ron Burgundy prescinde da filiação ao filme anterior. O título agora é Tudo por Um Furo. Will Ferrell volta à pele do âncora de TV que, na abertura, força a mulher a escolher entre a carreira e ele – num momento em que Christine Applegate é chamado a se transformar na primeira âncora e ele está recebendo um chute da emissora.

A pergunta inicial é – por onde tem andado Ron Burgundy? Afastado da TV, ele recebe um convite irrecusável. É chamado por uma nova emissora que, nos anos 1980, propõe uma inovação e tanto – 24 horas de noticiário no ar. Mas Burgundy e os amigos, incluindo Steve Carell – todos dispersos pelo mundo – não são chamados para o horário nobre, e sim para a faixa da madrugada. Ele chega a ser despedido pela executiva que coordena a área, mas isso só até descobrir que o cara virou um fenômeno de audiência.

Burgundy passa como trator sobre a ex e o apresentador metido, que logo é desmontado de seu posto no horário nobre. O filme expõe mudanças que deram uma nova cara à televisão. O próprio conceito da GNN, a emissora dentro do filme – notícias 24 horas –, não implica necessariamente informar o público, e sim em dar o que as pessoas ainda não sabem que querem. Burgundy vende patriotismo, devolve confiança a uma ‘América’ que, como ele, duvida de si mesma.

Tudo muito interessante e político, mas essa leitura, que poderia fazer de Tudo por Um Furo um thriller, não é a que interessa a Apatow nem a Ferrell ou a seu parceiro, o diretor Adam McKay, que também fez o primeiro filme da série. O herói vai subir nas estatísticas para redescobrir coisas simples – o valor da amizade, da família. Só que Apatow é um cínico que também não está interessado em celebrar valores tradicionais. Como o bandido da luz vermelha, que dizia ‘quem tem sapato não vai sobrar’, Apatow e seus parceiros esculhambam.

Não tendo nada a ver, Tudo por Um Furo tem tudo a ver com 12 Anos de Escravidão, o longa de Steve McQueen que nove entre dez críticos acreditam que vai ganhar o Oscar no domingo. A supervisora de Burgundy na TV é uma afro-americana deslumbrante. Inverte a relação de dominação que caracteriza a casa grande e a senzala de McQueen. Ela, literalmente, estupra o branquelo para mostrar quem está no comando, mas ele retribui. Convidado para jantar na casa da amante, defronta-se com um típico ambiente de classe média, mas usa um linguajar chulo e trata todo mundo como bandido e marginal. O recente episódio do ator da Globo que virou suspeito de um crime que não cometeu prova que essa visão do negro, lá como aqui, não é tão rara assim.

É tudo muito incorreto – e grosseiro, e vulgar –, mas a plateia da pré-estreia, na terça à noite, corria o risco de enfartar, quase morrendo de rir. Era um público predominantemente jovem – os millenials? – que se divertiu com a marcha a ré histórica. Tudo por Um Furo antecipa a vida online mesmo sendo anterior ao estouro da internet. Tem até uma galera da MTV – M o quê? Quanto mais idiota, melhor – vale tomar emprestado o título do velho longa de Penelope Spheeris com outro bando de babacas, à frente Mike Myers. O clima vira nonsense total quando Ron Burgundy, finalmente se dando conta do que deve ser prioritário na vida, larga tudo para ir ao concerto do filho na escola. O garoto compôs uma peça de piano para ele. No caminho, papai é interceptado pela gangue do âncora que humilhou. Chegam todos munidos de martelos, foices, serras elétricas.

Quando a batalha parece perdida, não param de surgir reforços – para um lado e outro. Will Smith, Liam Neeson, Marion Cotillard, Vince Vaughn, são muitas as participações especiais, sem crédito – antes já houve uma de Harrison Ford. Um crítico já escreveu que, daqui a 12 anos, o público talvez se dê conta de que O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, reflete, com seu excesso, o mundo atual. Pode ser, mas não há muita diferença da cena em que Jonah Hill se masturba. Rum por ruim, Tudo por Um Furo também reflete o mundo. Com incorreção e tudo, vai ser difícil não rir.

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