Tudo é falso e tão intensamente verdadeiro em "Dançando no Escuro"

Lars von Trier é conhecido na França como o homem que faz Cannes chorar. Primeiro, obrigou todo o mundo usar o lencinho com Ondas do Destino, que lhe valeu um prêmio especial do júri em 1996. Este ano, o dinamarquês levou a Palma de Ouro com Dançando no Escuro, insólito musical antiilusionista que chega hoje às telas brasileiras. Musical antiilusionista? Parece contradição. Mesmo porque toda a tradição do musical, incluindo-se aí o musical soviético, e o da cortina de ferro, que tentavam concorrer com Hollywood, baseia-se na aceitação tácita da ilusão. Tudo, no cinema, é falso. Mas o cinema realista procura esconder o artificialismo da sua construção para que pareça real, "verdadeiro". Acredita que o fascínio do público vem do seu esquecimento de que está numa sala escura, onde o que vê são imagens saídas de um projetor, os personagens que se movem e falam e de quem ele sente raiva ou por quem tem amor, são atores, etc. Pede-se ao espectador essa suspensão temporária do espírito crítico, ou realista. Um idiota da objetividade, para usar o termo de Nélson Rodrigues, não vai a uma sala de cinema. Ou a um teatro, ou a um jogo de futebol. O musical vai direto ao encontro da fantasia. Nele, tudo é tão ostensivamente falso que os diálogos (ou parte deles) são cantados em vez de serem ditos. Isso não impede que a magia se estabeleça em meio a um mar de artificialismo. Cada musical que bate na tela é um lembrete de que o cinema não nasceu escravo da estética realista. No entanto, nem os grandes musicais, como Os Guarda-Chuvas do Amor ou Cantando na Chuva ousaram desconstruir a si mesmos. Seria como um palácio que levou anos para ser terminado continuasse exibindo seus andaimes depois de pronto. Bem, Dançando no Escuro é um pouco isso. Um objeto cinematográfico não identificado, que se interroga a cada passo e coloca em xeque seu público. Como assistir seriamente a esse filme? Por outro lado, como não se emocionar diante da história da imigrante checa interpretada pela cantora islandesa Björk? E, no entanto, o tecido dessa história, a trama, como se diz, parece antes um daqueles melodramas deslavados, que se faziam nos anos 40 e 50 e hoje não se consegue mais levar a sério. Selma (é esse o nome da personagem) chega aos Estados Unidos durante os anos 60. É operária, está ficando cega e sabe que seu filho pequeno herdou a doença. A única esperança para o garoto é submeter-se a uma operação. Selma precisa levar uma vida de pobreza miserável, descuidar de si até o limite do desespero para poder pagar a cirurgia. E por aí vai, com o adicional de senhorios cobiçosos, gente inescrupulosa disposta a tirar proveito dos fracos, etc. No fundo, tudo seria apenas risível se Dançando no Escuro fosse apenas essa história patética de uma mãe abnegada, de uma criatura cuja passividade chega a ser exasperante para a platéia. Acontece que Lars von Trier é um manipulador, um hábil puxador de cordéis, que sabe ditar o ritmo e a intensidade das emoções, pode mobilizar luz e sombras em cada cena, tudo para que o espectador saiba - ao mesmo tempo - que tudo aquilo é falso e intensamente verdadeiro. Porque, a cada passagem mais dura ficamos sabendo que Selma precisa mobilizar a fantasia dos velhos musicais para suportar uma vida que lhe é imposta com tanto peso. E este consolo íntimo é exatamente aquilo que vemos na tela, transformado em canções e coreografias de uma estranha, ambígua e triste beleza. Grande arte é esta, que não precisa esconder seu mecanismo de funcionamento para ser eficaz.

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