Tudo dá certo em "Bicho de Sete Cabeças"

Bicho de Sete Cabeças tinha tudo para ser datado. Manifesto antimanicomial, panfleto libertário, ecos de Laing, Cooper, Basaglia, esses nomes famosos da desconstrução psiquiátrica, além de toques, aqui e ali, de O Estranho no Ninho, filme tão emblemático do espírito contestador de outra época. Tudo cheira um pouco a anos 60 e 70. O fato de o filme de Laís Bodanzky passar por cima desse intervalo de tempo e nos atingir em cheio, em pleno ceticismo "novo milênio", não deixa de ser um pequeno milagre. Como explicá-lo?Bem, Bicho de Sete Cabeças é o tipo de filme em que tudo dá certo. Tudo casa entre si, do trabalho de atores (com o surpreendente Rodrigo Santoro à frente) ao trabalho de câmera e fotografia, à trilha sonora e filmagem inspirada, baseada num roteiro que parece ter sido cuidadosamente depurado até se chegar à sua forma final. Enfim, o trabalho do diretor, do autor (embora seja cacoete pós-moderno negar a autoria em cinema), é esse mesmo. Em um trabalho coletivo, ele reúne as partes, imprime a cada uma delas o seu toque pessoal e assina o arranjo final. Ponto, portanto, para Laís Bodanzky, que regeu com competência essa orquestra.Todas as partes do filme concorrem para manter o interesse e a emoção envolvidos na história do garoto, Neto (Santoro), internado numa clínica psiquiátrica porque é pego fumando um baseado. O resto se sabe, o tratamento brutal quase destrói o garoto etc. Interessa é a maneira como tudo é contado, o som e a música construindo o clima angustiante do personagem, em perfeita harmonia com o ousado trabalho de câmera de Hugo Kovensky. Enfim, é cinema narrativo da melhor qualidade, maduro, forte, sincero.Talvez por isso pareça tão atual. Mas nem seria preciso tanto empenho estético para demonstrar a tese de que a psiquiatria não se civilizou tanto quanto se pensa. Basta lembrar que tratamentos psquiátricos desumanos ainda são prática corrente no País. E que essa confusão entre a doença mental e a punição de indesejáveis vem dos tempos anteriores a Pinel - foi fartamente documentada por Michel Foucault em sua História da Loucura. A institucionalização da psiquiatria como forma de poder não melhorou a vida dos pacientes e trouxe para a esfera médica "indesejáveis" até então controlados por outras instâncias sociais. Casos de polícia passaram a ser considerados "doentes". O caso mais famoso é o de Sade, internado em Charenton.Portanto, a história de Neto não é a de um desajustado destruído quando a família "deseja o melhor para ele". Expressa de forma contingente a luta perene entre liberdade e intolerância. Por isso, talvez, o filme agrade tanto ao público jovem - pelo menos foi o que aconteceu nos festivais de que participou. Nessa faixa de idade, liberdade não é apenas uma calça velha e desbotada nem se refere unicamente ao direito de comprar e vender produtos no mercado. Pelo menos não deveria ser.

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