Reprodução
Reprodução

Tsai Ming-Liang, por uma ética da imagem

'Cães Errantes' propõe que se olhe as imagens com atenção

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2013 | 20h29

Quem são os cães errantes do filme de Tsai Ming-Liang? Obviamente os seres humanos à margem da sociedade de consumo. No caso, eles estão em Taipé, capital de Taiwan, China insular. Poderiam viver (?) nos Estados Unidos ou na Europa, em São Paulo ou em Caracas. São o subproduto social, o lúmpen, os restos do metabolismo econômico, os que não têm vez e cuja existência é motivo de incômodo nas grandes cidades.

No filme, são duas crianças e um pai vivendo num prédio abandonado, aos quais se une uma mulher, em circunstâncias inesperadas. O homem ganha alguns trocados usando em torno do corpo aquelas placas de publicidade. Homem-sanduíche, como se diz por aqui. Numa das cenas mais impressionantes, ele exibe o seu produto sob chuva, protegido precariamente por uma capa plástica. A duração da cena, o barulho da chuva e do vento causam uma sensação de desconforto profundo no espectador.

E aí, talvez, esteja a razão para uma das características marcantes de Ming-Liang: a duração. Alguns planos têm sete, oito minutos. O mais longo deles, 13 minutos de imagens quase estáticas. O “quase” é fundamental. Porque o plano pode estar parado, mas a expressão dos atores, não. É neles que o diretor se concentra e são os sentimentos que imprimem força ao filme, por mais que o resultado possa parecer chato a um espectador ansioso.

Daí essa estética na contramão do veloz (e superficial) consenso contemporâneo. Amamos e louvamos tudo que seja leve, rápido, bem-humorado e sem compromisso. Tudo é reciclado no liquidificador da “cultura” pop e nada deixa rastro. Porque não precisa e nem deve deixar mesmo. O produto precisa ocupar um espaço de mídia e desocupá-lo em seguida, para que outro produto vendável e semelhante o substitua. Nossas mentes estão sendo formatadas desta maneira.

Então, de vez em quando, aparece um artista como Tsai Ming-Liang e propõe uma coisa diferente - que se olhe para as imagens com atenção. Intensamente, e delas se tire a impressão que merecem. É um desafio e tanto, talvez, e muito provavelmente, fadado ao fracasso. Mas é uma bela tentativa ética.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.