'True Detective' e 'Hannibal' trazem para a TV grandes atores do Oscar 2014

Grande aposta para levar prêmio de melhor ator Matthew McConaughey, é a alma da série da HBO

Clarice Cardoso, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 23h00

Matthew McConaughey é para quem fatalmente todos estarão olhando na noite de domingo quando for anunciada a categoria de melhor ator durante a cerimônia do Oscar. Se é seu nome que será chamado não se pode dizer, mas, aquele momento concretizará o fato de que ele é um dos melhores intérpretes hoje em atuação.

Faz uma ponta em O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, mas é pelo papel em Clube de Compras Dallas que estará em foco. Tem atuação memorável como o eletricista que é diagnosticado como portador do vírus HIV e começa um negócio paralelo para distribuir formas alternativas de tratamento aos pacientes. Passou como um furacão pelas premiações mais importantes que aconteceram até agora: venceu o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards.

Matthew protagoniza um caso raro: um dos atores mais cotados a vencer o Oscar pode ser visto também numa série de TV – aconteceu em 2007, quando Forest Whitaker venceu por O Último Rei da Escócia na época em que estava em The Shield e em ER, e Helen Hunt, em 1998, que estrelava Mad Abou You e venceu por Melhor É Impossível.

 

O ator está na bem-conceituada True Detective, que está no ar na HBO, em cujo set entrou imediatamente depois de sair do de Dallas. Lá encontrou o criador Nic Pizzolatto, que já escrevera os dois primeiros episódios, mas True Detective não existiria sem Matthew – e, se existisse, poderia passar despercebida como mais um drama policial. Foi ele quem, depois de se reunir com o idealizador, deu estofo à proposta e trouxe Woody Harrelson (em uma de suas melhores atuações televisivas recentes) para o projeto.

Sua atuação tem sido elogiada por críticos de todo o mundo. O que o atraiu no papel foram os muitos monólogos do personagem. Ele já afirmou algumas vezes que é o tipo de coisa que o fascina. Em boa parte dos episódios, Matthew fala para a câmera, para o espectador. É fascinante. É difícil pensar em outro intérprete dando tanta autenticidade ao tipo de texto que o roteiro propõe. Muitas falas são literárias demais, soariam falsas, mas não quando ditas por ele.

A série se divide em duas partes, e começa em 1995, quando dois detetives, Martin Hart (Woody) e Rustin Cohle (Matthew), investigam a cena do assassinato ritualístico de uma ex-prostituta. Ela tem um símbolo pintado nas costas, usa uma coroa de chifres, está vendada e amarrada como se rezasse para uma árvore. Cohle, obcecado por livros de criminologia, desconfia corretamente que aquele não é um crime único, que há outros. E de fato parece que os dois estão atrás de um serial killer.

A sacada é que, 17 anos depois, em 2012, os ex-parceiros já não se falam mais, e um crime parecido é cometido. Como isso seria possível, se o criminoso foi pego? Os dois tempos se misturam ao longo dos episódios quando Cohle e Hart são trazidos para entrevistas separadamente.

A metamorfose de Matthew se concretiza. Ao viver a mesma pessoa, ele interpreta, na verdade, dois personagens. O olhar, a postura, os gestos, tudo é diferente entre o passado e o presente.

O primeiro é o detetive jovem, sagaz e altivo de 1995. Mantém uma distância analítica daqueles ao seu redor e não se diferencia muito da frieza de outros policiais que vemos na TV. Em 2012, virou outra pessoa. Visivelmente envelhecido, de cabelos longos e desalinhados, tornou-se alcoólatra e fuma compulsivamente. O cinismo atingiu seu ápice, e ele filosofa sobre a formação da sociedade, a frieza das relações humanas e da hipocrisia que mantém tudo funcionando.

É por isso que o prêmio na noite de domingo não seria apenas por Dallas, mas por esses riscos e pela versatilidade que ele tem demonstrado como ator também em True Detective. A série foi vendida com a proposta de ter a cada ciclo personagens e tramas diferentes, e o criador já disse que nada ficará realmente claro até os créditos do oitavo episódio.

Pizzolatto trabalha na segunda temporada, e tudo leva a crer que o tom já será outro. A começar pelo diretor dos episódios, Cary Fukunaga, que está em negociações com a Fox e não mais participará tão diretamente do projeto. Além disso, especula-se que a próxima leva trará detetives femininas, o que causou bastante debate, especialmente por conta de alguns diálogos considerados misóginos.

 

Filme estrangeiro. Mads Mikkelsen é outro caso raro de um ator sendo elogiado pelo trabalho no cinema, em A Caça, que está em ascensão na TV. O dinamarquês interpreta um professor de educação infantil que é alvo da mentira de uma menininha no filme de Thomas Vinterberg, indicado ao Oscar de filme estrangeiro. De homem respeitado na comunidade, ele passa a ser vítima de perseguição por todos os lados, acusado de pedofilia. É o fim da vida como a conhecia.

Ele está também em Hannibal, série que lhe deu a dificílima tarefa de assumir um personagem que foi imortalizado na memória do público pelo vencedor do Oscar Anthony Hopkins. Na produção, cuja segunda temporada estreia no próximo dia 10, às 23h, no AXN, o canibal é o psiquiatra que trata um conselheiro do FBI que tem visões sobre os casos em que trabalha. Os caminhos dos dois se cruzam nas cenas dos crimes e no consultório.

O grande trunfo de Mads foi dar uma interpretação própria para o personagem. O que vemos na série é um Hannibal especialmente seu, e não uma tentativa de copiar o que fez Hopkins.

Em Cannes, o ator ganhou a Palma de Ouro pela atuação em A Caça, um prêmio que já diz tudo sobre seu talento. Ao enviado especial do Caderno 2, Luiz Carlos Merten, disse na ocasião: "Tudo é ferramenta para o pathos e é isso, como intérprete, que tenho de expressar". Em menor escala, ele poderia muito bem estar se referindo a Hannibal.

Tudo o que sabemos sobre:
Prêmio Oscar

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.