AP Photo/Matt York
AP Photo/Matt York

Troy Kotsur, ator surdo que disputa o Oscar, diz que quer inspirar jovens

Com ‘Coda’ no Brasil, artista com deficiência auditiva é o segundo a concorrer a prêmio por atuação

Jake Coyle, AP

19 de fevereiro de 2022 | 05h00

Em sua atuação indicada para o Oscar em Coda, Troy Kotsur tem uma frase falada, mas é uma boa frase. Ao incentivar a filha, interpretada por Emilia Jones, a perseguir seus sonhos de cantar e ir para a faculdade diz em voz alta: “Vá!”.

Para Kotsur, essa única palavra exigiu muito ensaio e coragem para pronunciar algo que ele mesmo não podia ouvir em um set de filmagem. Mas ele já havia feito isso antes. Anos atrás, como Stanley Kowalski em uma produção do Deaf West Theatre de Um Bonde Chamado Desejo, exclamava “Stella!”, noite após noite. “Às vezes eu pergunto ao público como é a minha voz”, disse Kotsur em linguagem de sinais. “Uma pessoa a descreveu como se sentir confortável e aconchegado na cama.”

Kotsur, de 53 anos, é apenas o segundo ator surdo a ser indicado para o Oscar. E, com o “Vá!”, ele espera que sua conquista ressoe como inspiração. “Espero que os jovens surdos ou com deficiência auditiva possam se tornar mais confiantes e inspirados a perseguir seus sonhos”, comentou Kotsur. “Quero que essas crianças não se sintam limitadas.”

Com o título no Brasil de No Ritmo do Coração, Coda, de Sian Heder, disponível na Amazon Prime Video e indicado para melhor filme, elevou Kotsur à grande cena de Hollywood enquanto faz história para a comunidade surda. Ele é o primeiro ator surdo indicado individualmente para o Screen Actors Guild (SAG). E a enxurrada de elogios tem sido desconcertante.

Quando foi indicado para o Bafta do cinema britânico, comemorou tanto que caiu da cadeira. Aceitando o prêmio Gotham de melhor ator coadjuvante, ele falou à multidão que não estava sem palavras, mas “absolutamente incapaz” de se expressar no momento.

“É simplesmente avassalador”, afirmou Kotsur sobre a aclamação. “É impressionante. Sinto que posso morrer feliz, com um sorriso no rosto.” A única pessoa que passou por algo semelhante foi a coestrela de Coda Marlee Matlin. Juntos, eles interpretam os pais de uma família de pescadores surdos de Gloucester com uma filha ouvinte. Kotsur lembra de ver Matlin se tornar a primeira atriz surda a ganhar um Oscar, em 1987, por Filhos do Silêncio.

“Senti que poderia ter esperança como ator surdo”, lembrou Kotsur em uma entrevista pelo Zoom de sua casa em Mesa, Arizona, por meio de um intérprete. “Claro, eu não percebi o quão difícil seria passar pelo show business.”

O longo caminho de Kotsur para o Oscar começou, segundo ele, na escola primária. Com pouca programação de televisão acessível a ele, adorava desenhos animados altamente visuais como Tom e Jerry e os contava alegremente para seus colegas surdos no ônibus. Seu pai, um chefe de polícia, mais tarde o chamaria carinhosamente de “temerário” por começar a atuar. Kotsur estudou atuação na Universidade Gallaudet e depois excursionou com o Teatro Nacional de Surdos.

Com poucas oportunidades de TV e cinema disponíveis para atores como ele, acabou encontrando liberdade no palco. Começando com Of Mice and Men em 1994, ele atuou em cerca de 20 produções da Deaf West, a companhia de teatro sem fins lucrativos de Los Angeles fundada em 1991. Em uma peça, conheceu sua mulher, a atriz Deanne Bray. Ele também interpretou Cyrano de Bergerac e estrelou American Buffalo.

DJ Kurs, diretor do Deaf West, lembra de ter sido “totalmente atraído pelo magnetismo de Kotsur” em Bonde. Muitas vezes, desde então, ele viu seu processo imersivo de perto. “Trabalhar com ele nos ensaios é como estar na presença de um cientista louco”, contou Kurs por e-mail. “Ele está sempre ajustando e afinando.”

A diretora Sian Heder viu Kotsur pela primeira vez em duas peças do Deaf West: At Home in the Zoo e Nossa Cidade. “E eram personagens muito diferentes”, lembrou.

Kotsur estava acostumado a ver personagens surdos vitimizados e unidimensionais, mas Coda apresentava algo que ele raramente tinha visto. Os Rossis de Coda podem ter de trabalhar um pouco mais, mas são uma família como qualquer outra, com conversas divertidas à mesa e brigas casuais. O Frank de Kotsur também é um pouco libidinoso e profano. Em uma cena em que fala à filha sobre sexo seguro, ele imita um soldado colocando um capacete.

Kotsur, que sempre viu outros atores xingarem, se divertiu com a vulgaridade de Frank. Ele orgulhosamente se lembra do cabo de guerra do filme com a Motion Picture Association of America (MPAA) depois que Coda quase recebeu uma classificação R (exigindo que menores de 17 anos assistam acompanhados de um dos pais ou responsável). Mas para Kotsur, Frank é como um surdo de verdade: “Um surdo trabalhador que simplesmente sobrevive”.

“Quero que o público tenha uma perspectiva diferente. Quero que eles se livrem de suas noções preconcebidas de como são os surdos”, aconselhou Kotsur. “Existem médicos surdos. Há advogados surdos. Há bombeiros surdos. Muitas pessoas ouvintes não percebem isso.”

Talvez a cena mais comovente de Kotsur seja um momento compartilhado na caçamba de sua caminhonete com sua filha, Ruby. Incapaz de compreender o talento de cantora de Ruby, ele a ouve cantar, sentindo ternamente as vibrações de seu pescoço.

A cena tem ecos profundos na própria vida de Kotsur: sua filha de 17 anos com Bray também é uma filha de adultos surdos atraída pela música. “Quando minha filha está tocando música, ela não sabe que estou atrás dela. Eu me aproximo e toco o corpo do violão e posso sentir as vibrações dele”, revelou.

A primeira vez que Kotsur leu o roteiro de Coda, tomou isso como um sinal de alerta já que ele, como seu personagem, não está pronto para ver sua filha sair de casa. 

São conexões pessoais como essa que tornaram difícil deixar o papel de Frank para trás. Para Kurs, Kotsur é um pioneiro. Graças a ele e a Matlin, observou, haverá mais trabalho para atores surdos.

Desde então, um Kotsur mais bem arrumado apareceu na série da Disney + The Mandalorian como um Tusken Raider, para o qual desenvolveu sua própria linguagem de sinais. Outros papéis aguardam, assim como uma esperada turnê de palestras para crianças e aspirantes a atores surdos. Mas, por enquanto, ele absorve tudo o máximo que pode.

“Estou tentando aproveitar cada dia e cada momento”, ele acrescentou. “Não estou com pressa. Não sou obcecado por vencer. Esses dias vão passar. Eu nunca vou vivê-los novamente.” TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.