Tropa de elite é tema de novo filme de José Padilha

O Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio vai ser tema de um longa-metragem de ficção. O projeto é do diretor de Ônibus 174, José Padilha, que trabalha no roteiro em parceria com o ex-capitão da PM, Rodrigo Pimentel, também consultor e co-produtor do documentário que tentou explicar o seqüestro de um ônibus urbano, há quatro anos. O episódio resultou na morte de uma refém (atingida pela arma de um policial) e do seqüestrador. Premiado no FestRio de 2002 e elogiado dentro e fora do Brasil, Padilha escolheu a ficção para melhor contar o dia-a-dia da tropa de elite da polícia carioca. "Filmes sobre violência como Carandiru e Cidade de Deus mostram a questão pelo lado do bandido, nunca a versão do policial. Esse filme revela como se forma a tropa de elite, seus dramas diários e como um integrante dela convive com a sociedade e com a corporação", explica Padilha, que ainda não fechou o orçamento, mas já tem distribuidoras interessadas e previsão de filmar em 2005. "Optei pela ficção porque o universo da PM é inexpugnável, mas vou usar um tom hiper-realista e a bagagem de documentarista." A aproximação entre Padilha e Pimentel, que é sociólogo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), se deu quando o primeiro colhia dados para Ônibus 174, seu primeiro filme. Padilha viu o então capitão da PM na televisão criticando as condições de trabalho do Bope, segundo Pimentel, a causa do fracasso no seqüestro, e o procurou. Pimentel saiu da PM por suas opiniões sobre o Bope, em particular, e a instituição, em geral, mas fala com carinho dos antigos companheiros. "Ainda é a melhor tropa da polícia fluminense, mas foi desvirtuada. O Bope foi criado em 1982 como um núcleo de elite para agir em situações extremas e tinha 60 homens, entre soldados e oficiais. Eles recebiam treinamento intenso e se aprimoravam constantemente", conta. "Nos últimos anos, a tropa cresceu para 500 e, é claro, o treinamento decaiu. Não há elite de 500 pessoas e treiná-las não se restringe a dar-lhes uma farda preta, como acontece agora." O filme será de ficção, mas a pesquisa já dura um ano. Nove soldados e dois oficiais do Bope foram exaustivamente entrevistados. "A estrutura da instituição incentiva a corrupção. Metade do filme vai mostrar como é a vida dentro dos quartéis e a segunda parte, o que acontece quando eles vão para a rua." "Além disso, lidam diariamente com o medo, pois o soldado é humano e não existe herói. Até há viciados em adrenalina, que gostam do perigo, mas são exceção, nunca os melhores da tropa." Padilha e Pimentel não decidiram ainda (ou não revelam) como vão tratar as denúncias de violência e corrupção feitas pela população que o Bope deveria proteger. Ele também considera caricatural o retrato da polícia na ficção brasileira, em filmes, novelas e seriados como Plantão de Polícia e Delegacia de Mulheres. Ao contrário de Padilha, cujo interesse é contar uma boa história, Pimentel acha que um filme sobre o Bope ajuda a mudar a corporação. "Um filme forma massa crítica, alerta a sociedade para um situação e, com isso, pode mudar as instituições", conta ele. "Não vamos poupar críticas ao Bope, mas teremos o cuidado de preservar o ser humano, o profissional que escolhe essa corporação."

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