"Tróia" traz heróis para um mundo desencantado

Essa história faz parte do patrimônio da humanidade. Afinal, todos nós já ouvimos falar no cavalo de Tróia, já demos ou recebemos algum presente de grego, conhecemos a beleza de Helena e temos o nosso calcanhar-de-aquiles. São temas, termos e personagens associados ao cerco dos gregos a Tróia que, segundo se diz, durou dez anos, e teve um poeta à altura para imortalizá-lo e aos seus heróis. Homero, o poeta, teria vivido por volta do século 8.º a.C., mas há até quem duvide de sua existência. Outros acham que seu longo poema sobre a guerra - a Ilíada - seria obra coletiva em vez de trabalho de um único artista. Essa história - que inclui batalhas sangrentas, busca da notoriedade, maquinações políticas, mas também paixão, sexo e ciúmes, isto é todos os ingredientes de um bom drama moderno - chega agora em nova versão hollywoodiana, uma superprodução de quase US$ 200 milhões, com um astro cintilante como Brad Pitt no papel de Aquiles. O longa-metragem (longuíssimo, aliás, exatos 2h43 de duração), dirigido por Wolfgang Petersen, se diz uma adaptação da Ilíada. Em termos. A história foi bem mudada, como seria de esperar. E não em seus detalhes, mas em sua essência mesma. No mundo homérico, deuses e homens conviviam. Os deuses e deusas eram poderosos e truculentos. Intervinham diretamente nos assuntos humanos. Negociavam, brigavam entre si, davam vazão aos seus impulsos sensuais e sua inveja. O mundo de Petersen é laico. As motivações dos seus personagens são perfeitamente humanas, assim como a escala de suas lutas e batalhas. Em entrevistas, diz que expurgou a parte divina da Ilíada, pois ela não era conveniente para o tom realista que queria dar ao relato. Esse realismo, em se tratando do cinema comercial contemporâneo, é até um alívio. Com isso se quer dizer que, apesar da coreografia das lutas e dos combates, em Tróia não se vai ver lutadores andando de cabeça para baixo pelo teto das casas, subindo paredes, derrotando 50 oponentes com um único golpe de espada, como se assiste em filmes como Matrix, O Tigre e o Dragão, Kill Bill e outros do gênero. Apesar do tom grandioso, paradoxalmente Tróia é mais sóbrio do que a regra. Mesmo o herói, Aquiles, é visto como um grande lutador, mas nem por isso como super-herói de histórias em quadrinhos, gênero que se tornou a matriz do cinema de ação contemporâneo. O esvaziamento é de outra ordem. Aquiles teria tudo para ser um herói complexo. Afinal, sua situação diante da guerra é ambígua. Ele não tem o desejo de vingança de Menelau, nem a vontade de poder de Agamenon. Quer se bater pela glória, para que seu nome não seja levado pelo pó do tempo e ressoe através dos milênios, como profetiza sua mãe, Tétis (Julie Christie, ótima), numa das melhores cenas do filme. Nela, Tétis pondera que uma vida pacífica, junto a filhos e netos conduz ao esquecimento. Na batalha está a glória, talvez a imortalidade na memória dos homens, mas o preço que se paga é a morte, provavelmente a morte prematura. Esse sentido trágico dos gregos passa pelo filme como uma chispa, talvez para não chamuscar demais o que os estúdios supõem ser a percepção do espectador médio. Talvez porque essa alusão atemporal de Tétis pudesse soar como um comentário sobre a vontade de poder americana e seu desejo de intervir em todo o planeta. Além do mais, o próprio enredo já fornece, de graça, as injunções políticas para quem se dispuser a percebê-las. O estopim da guerra seria Helena (Diane Kruger, beldade alemã que antes trabalhava como modelo), que, casada com Menelau (Brendan Gleeson) se apaixona pelo troiano Páris (Orlando Bloom) e foge com ele. Menelau, em seu desejo de vingança, pede ajuda a seu irmão Agamenon (Brian Cox), rei dos gregos, que vê no affair uma excelente oportunidade para declarar guerra a Tróia e assim aumentar seu poder na região. Esse jogo de manipulação - no qual milhares de pessoas perdem a vida - fica sempre em segundo plano. Mais uma vez: ele seria demasiado explícito como comentário sobre o que acontece, não no mundo antigo, povoado de heróis e deuses, mas no nosso mundo de hoje, prosaico e desencantado. Assim, o tom do filme aposta no esvaziamento de suas potencialidades dramáticas - embora, sejamos justos, inclua pelo menos uma cena de alta voltagem, quando o rei de Tróia, Príamo (Peter O´Toole), vem reclamar o corpo de seu filho Heitor (Eric Bana), morto por Aquiles. Mas, tirando essa seqüência, e alguns bons momentos isolados, o que se tem é a grandiloqüência oca de um épico convencional, com suas cenas construídas pela computação digital e infindáveis seqüências de batalhas - no cinema, quem viu uma viu todas. O mundo antigo é fascinante. Dele, sobraram apenas restos - textos, inscrições na pedra, ruínas. A partir desses fragmentos tenta-se reconstruir alguma coisa que o tempo levou, e que é o nosso passado mais íntimo e pungente. É pena que o cinema, com raras exceções (Satyricon, de Fellini, é uma delas), o reconstrua com tão pouco senso de poesia, imaginação e inteligência.

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