Tristeza na abertura do Festival de Gramado

Como não poderia deixar de ser, a nota emocionante da abertura do 29.º Festival de Cinema de Gramado, ocorrida na noite de segunda-feira, foi o anúncio da morte de Jorge Amado. A triste coincidência é que tenha sido comunicada ao público pelo apresentador do festival, o ator José de Abreu, que exatamente agora está vivendo um personagem, o pistoleiro Eriberto, na novela da Globo, Porto dos Milagres, inspirada em Mar Morto e A Descoberta da América pelos Turcos, dois dos livros de Amado. O clima foi de consternação geral, apesar de a notícia já ser esperada, dado o estado de saúde do escritor. O diretor e produtor Daniel Filho, por exemplo, conformava-se: "Jorge não nos deixou; pelo contrário, ele deixou para nós uma grande e inesgotável obra", disse. Na tela, foram vistos os dois primeiros longas em concurso, Yoyes, da espanhola Helena Taberna, e o brasileiro Duas Vezes com Helena, de Mauro Farias. Os curtas-metragens apresentados foram A Canga, de Marcus Villar, Negócio Fechado, de Rodrigo Costa, e A Ilha, de Zeca Pires. Não se pode dizer que nenhum dos filmes apresentandos, curtas ou longas, tenha particularmente tocado a platéia, mas também não parecem tê-la decepcionado a fundo. As reações foram comedidas, respeitosas, passando longe da consagração ou do repúdio. Temperatura amena, com a da própria cidade. Yoyes é um eficiente thriller político, baseado em personagens e fatos reais. A personagem-título é interpretada por Ana Torrent, que foi a garotinha de Cria Cuervos, de Carlos Saura, e hoje está bem crescida. A ponto de fazer uma guerrilheira do ETA, a organização separatista basca. Yoyes sobe na hierarquia da organização, torna-se dirigente e símbolo da luta basca. Depois vê-se obrigada a fugir, deixa o país, exila-se no México e mais tarde volta à Europa via França. Nesse meio tempo, casara-se e tivera uma filha. Deseja reunir-se à filha e ao marido, no País Basco, o que poderia fazer depois da anistia concedida pelo governo democrático que sucedeu a era Franco. Mas aí são alguns de seus próprios ex-companheiros que se opõem à volta de Yoyes. Temem que um símbolo de luta se transforme em emblema da acomodação aos novos tempos. Em suma, Yoyes quer uma vida normal, com o marido e a filha, mas seu passado político a impede. O filme é uma clara ilustração do cansaço da sociedade espanhola, e também da sociedade basca, com as atividades do ETA. O extremismo parecia ser aceito numa época em que várias forças convergiam na resistência contra o fascismo que dominou a Espanha durante 40 anos. Com a morte de Franco, houve a redemocratização e a Espanha, aos poucos, conseguiu acertar contas com seu passado. Evitou algumas tentativas reacionárias (como o putch ensaiado por Tejero de Molina) e transformou-se numa sociedade moderna. Integrou-se à Europa. Por isso, a reivindicação de separatismos, e com a carga de violência costumeira, parecem tão odiosos e antiquados. Mas, claro, o problema basco continua a existir, e vez por outra se manifesta por meio de uma bomba ou de um atentado. Yoyes, o filme, é testemunho da desaprovação coletiva a esse tipo de ação política. Como cinema, parece convincente, embora não deixe de recair nos clichês do gênero, estabelecidos, por exemplo, por um mestre nesse tipo de filme, o grego-francês Constantin Costa-Gravas (autor de Z e Missing, o Desaparecido, entre outros). Quer dizer, é um cinema tenso, necessário, envolvente, ainda que bastante convencional do ponto de vista estético. Mas convence, em especial nas cenas de ação, que são realistas e muito bem construídas, sem nada da espetacularização fake do cinema de ação hollywoodiano. Mais do que isso, em Yoyes, a ação está a serviço de algumas idéias, que se podem discutir, mas afinal são idéias, o que anda raro no cinema comercial de hoje. É, pelo menos acima da média. Frustrada estréia de "Helena" em Gramado - Duas Vezes com Helena procura envolver o espectador pela recriação do texto sibilino e ardiloso da novela de Paulo Emílio Salles Gomes, parte do livro Três Mulheres de Três PPPês. São três personagens, jogados numa complicada ciranda interpessoal, o professor Alberto (Carlos Gregório), Polydoro (Fábio Assumpção) e Helena (Christine Fernandes). Há uma certa frieza no todo, um distanciamento que, em parte, certamente, vem do próprio original. Paulo Emílio conta a sua história num tom démodé que constrasta com o avanço das idéias expressas no texto. Esse desencontro causa uma sensação de estranhamento, e é o que o livro tem de melhor. No filme, isso não se resolve tão bem. Em parte porque a narração constante em primeira pessoa pode cansar. Em parte porque o artificialismo buscado não resiste à necessidade de realismo do cinema. Fica, por exemplo, difícil imaginar que um Fábio Assumpção, escassamente maquiado, possa estar comemorando seu 50.º aniversário. Apenas um detalhe? Sim, mas detalhes às vezes são fundamentais para a credibilidade de um filme. Talvez o maior problema de Duas Vezes com Helena seja o fascínio excessivo com o texto de Paulo Emílio. Contraditório, cheio de sutilezas e nuances, poderia, talvez ter sido depurado num roteiro mais seletivo. A opção foi não deixar nada de fora. O resultado é que a complexidade às vezes se perde no atropelo. Uma bela tentativa, que nos deixa um pouco frustrados por não ter conseguido chegar até aonde poderia.

Agencia Estado,

07 de agosto de 2001 | 12h52

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