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Triste história de amor afegã

‘Wajma’ expõe as contradições de uma sociedade que busca uma modernidade atrelada ao peso do passado

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2013 | 22h22

O que promete ser uma love story termina em uma quase tragédia – Wajma, de Barmak Akram, é o concorrente do Afeganistão na disputa do Oscar de melhor produção estrangeira do próximo ano. E pode despontar com grandes chances. Afinal, o longa se equilibra no contraste entre modernidade e tradição, que marca o país.

Wajma é uma jovem de classe média, que se prepara para entrar na faculdade de advocacia. Ela vive em Cabul, com a mãe, a avó e o irmão – o pai trabalha no interior do Afeganistão, à caça de minas explosivas ainda escondidas em diversos territórios. A ausência paterna facilita seu namoro escondido com Mustafa, rapaz que trabalha como garçom em um restaurante.

Apesar de esclarecida, Wajma cede ao assédio do namorado e engravida. É o suficiente para seu mundo começar a se desintegrar. Nesse momento, o filme de Akram atinge a fronteira da tradição – até então, a vida moderna e seus costumes ditam a rotina de Wajma e sua família, mas, a notícia da perda da virgindade descortina a verdadeira realidade. O pai da moça retorna imediatamente para casa, a fim de reparar a desonra que ameaça a família.

Sua raiva é revelada em uma das cenas mais tensas do filme. Ele agride a filha com tapas e palavrões, não admitindo desculpas. E, a fim de esconder a vergonha, tranca a moça em quartinho, onde passa fome e frio.

A solução do pai está em procurar Mustafa e tentar convencê-lo a se casar com Wajma. O moço, entretanto, nega-se, dizendo desconfiar da virgindade da jovem, pois “ela nem sangrou”. Assim, não resta outra solução que não exilar a garota, onde terminará a gestação escondida e com possibilidade zero de retornar com a criança, que será direcionada para adoção.

Wajma desponta como uma fabula contemporânea sobre a moral, em que o sentimentalismo e o comportamento de risco tornam-se elementos secundários quando a honra da família está em jogo. A importância é tamanha que o pai de Wajma, ao procurar Mustafa, implora: “Minha vida está em suas mãos. Estou desonrado, temo pelo pior”.

O desespero é tamanho que o homem procura um promotor a fim de calcular a consequência que enfrentaria se mandasse assassinar o rapaz. Descobre que, como não conseguiu flagrar o momento da desonra, acabaria na cadeia caso planejasse a morte.

A fim de ressaltar a crueza da trama, Barmak Akram filmou com a câmera na mão, em estilo documental e enquadramentos furtivos. O resultado é um longa dolorosamente realista, no qual o subtítulo, Uma História de Amor Afegã, traduz com ironia a dualidade em que vive o Afeganistão moderno, dividido entre aceitar a influência ocidental e a base social ancorada em regras tradicionais.

Nesse sentido, o personagem Mustafá ganha relevo. Afinal, no início da história, ele age como um metrossexual, interessado em sua beleza e também em atrair Wajma para um relacionamento moderno. Quando percebe estar envolvido em um grande problema, ele recua e se protege na lei secular que garante ao homem privilégios em relação à mulher. Sua fraqueza revela uma fragilidade e também o grande desafio imposto a uma sociedade que ainda busca acertar sua identidade.

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