Tributo a Sérgio Ricardo abre 34.º Festival de Brasília

Com homenagem ao compositor, cantor, polemista e cineasta Sérgio Ricardo, começa amanhã à noiteo 34.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Seu terceirofilme, A Noite do Espantalho, será exibido no Teatro Nacional, onde também haverá apresentação da orquestra da casa, regidapelo maestro Sílvio Barbato. Na quarta-feira começa a mostra competitiva,que ocorre, como de tradição, no Cine Brasília, um dos maisbonitos cinemas do País e certamente o mais confortável.Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, dá início àdisputa pelos troféus Candangos, a estatueta da competição. Olonga de Carvalho já foi apresentado em festivais e estreou emcentros importantes do País. Concorre com mais dois títulosbatidos, Dias de Nietzsche em Turim e Netto Perde SuaAlma, e três inéditos, O Invasor, Samba Riachão eUma Vida em Segredo.Ineditismo vai contar na premiação? Só Deus e o júrisabem. Mas em tese tanto os que mostraram seus filmes urbi etorbi quanto os que os preservaram para o festival concorrem emigualdade de condições aos R$ 50 mil do prêmio principal. Talveztanto ou mais que o dinheiro, pese o prestígio de vencer aqueleque é ainda o mais importante festival de cinema do País, emboravacilante em seus critérios de curadoria. Seu concorrente direto, o de Gramado, também não costuma pecar pelo rigor, de modo queuma mão lava a outra e assim caminha o País. Agora, abertos osprecedentes, como convencer os cineastas a guardar seus filmesinéditos para os próximos festivais?Além de promover as competições em longa ecurta-metragem, Brasília cumpre outra de suas funções, amemorialística, e reprisa antigos títulos, como o já citado ANoite do Espantalho, e mais Tocaia no Asfalto e A GrandeFeira, ambos de Roberto Pires, A Bolandeira, de VladimirCarvalho, e Tudo Azul, de Moacir Fenelon. São importantes,por motivos diversos, e havia muito andavam longe das telas. ANoite do Espantalho (1974) é um cordel em forma de cinema,desenvolvido em linguagem musical e conduzido pelo cantor ecompositor Alceu Valença. Merece reavaliação para mostrar oquanto é duradouro ou se não passa de curiosidade, exemplar rarode uma mentalidade que o vento levou. A Grande Feira (1961)tem sua importância histórica garantida por sua investigaçãosobre a vida do povo pobre da Bahia, os habitantes de Água deMeninos. Tocaia no Asfalto (1962) é um policial à modanordestina. Tudo Azul (1951), com Luis Delfino e Marlene,passa por musical sui generis, conservado durante muito temposob a forma de lenda, pois dele não existia cópia. ABolandeira (1967), de Vladimir Carvalho, fala dos antigosengenhos de cana, e serviu de inspiração para AbrilDespedaçado, de Walter Salles, que disputa uma das cinco vagaspara a final do Oscar.No segmento cinema falado, o destaque em Brasília será oseminário Dramaturgias do Cinema Latino-Americano, comespecialistas como José Carlos Avellar, Jorge Sanches, SílviaOroz, Ismail Xavier e João Luiz Vieira. Será interessantecomparar o que anda acontecendo nas cinematografias docontinente com a brasileira. México e Argentina têm apresentadoboa média de ficções interessantes, ao passo que no Brasil elasrareiam. Estaremos vivendo um défict ficcional, um dessesmomentos de repouso criativo que acontecem com qualquercinematografia?A tentação, já que o debate se trava no interior de umfestival, será usar os concorrentes como parâmetro. De LavouraArcaica já se sabe que tem seus devotos e ímpios, noverdadeiro culto criado ao filme. Mais modestamente, NettoPerde Sua Alma também já andou comentado, por ocasião de suapassagem pelo Festival de Gramado. Resta esperar o que podemapresentar Suzana Amaral, com Uma Vida em Segredo, e BetoBrant, com O Invasor - as únicas ficções novinhas em folhanesta edição do Festival de Brasília. Suzana retorna com umaadaptação de Autran Dourado, depois de ter feito sucesso em 1985com A Hora da Estrela, baseado em Clarice Lispector. Branttambém é dono de bom retrospecto, em especial por causa de OsMatadores, sua excelente estréia. O Invasor é seu terceirolonga-metragem, e nele volta ao gênero policial.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.