Tributo a Carlos Manga sela reabilitação da chanchada

"Ninguém gosta das chanchadas... a não ser o público." A frase, atribuída ao jornalista Zevi Ghivelder, é lembrada pelo diretor Carlos Manga, em entrevista ao Estado, para expressar a distância que separava público e crítica na avaliação do gênero, que custou a ganhar reconhecimento. Passado meio século desde Matar ou Correr, a chanchada já goza do patamar de clássico do cinema brasileiro. Prova disso são duas recentes homenagens que Manga recebeu. "Cada nova homenagem que recebo se dirige não só a mim, mas a todos que fizeram a chanchada. A Oscarito, que sabia tudo, a Eliane Macedo, a Grande Otelo, a José Lewgoy, a Adelaide Chiozzo, a Cyll Farney. A Cajado Filho, o grande cenógrafo e roteirista negro, que a Escola de Belas Artes não valorizou por causa de sua cor", afirma.Meses atrás, Manga foi homenageado pelo Festival de Comédias Engraçadas. Agora, o cineasta de O Homem do Sputnik atrasa suas férias, após dirigir a minissérie global Um Só Coração, para receber, nesta terça-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil, uma justa homenagem e debater sua obra com o público. Uma sessão de Nem Sansão, Nem Dalila abre a programação da mostra, que exibirá boa parte de seus 24 filmes (21 produzidos pela Atlântida Cinematográfica) até 2 de maio.É o reconhecimento de um gênero que sempre foi massacrado pela crítica. "A cada estréia, abríamos os jornais e as agressões se somavam. A crítica era maldosa, se negava a reconhecer qualquer qualidade, por menor que fosse, no nosso trabalho. Mesmo assim, nós seguíamos realizando filmes divertidos, alegres", lembra Manga. Os primeiros passos da reavaliação e valorização da chanchada foram dados por Sérgio Augusto, em 1989, com o livro Este Mundo É Um Pandeiro - A Chanchada, de Getúlio a JK.Algumas seqüências de chanchadas já podem ser consideradas antológicas do gênero, como Norma Bengell seduzindo Oscarito, como se fosse Brigitte Bardot, fazendo biquinho e cantando em francês em O Homem do Sputnik, ou então Grande Otelo e Oscarito no balcão de Romeu e Julieta, em Carnaval no Fogo (Watson Macedo/1949). "Hoje, contamos com estudos capazes de mostrar que nós fizemos o Brasil rir durante duas décadas, com filmes que tinham muito de nosso jeito de ser, de nossa identidade. Não nego que eu era colonizado pelo cinema americano. Mas, com o desenrolar de minha carreira, fui percebendo que tínhamos de nos libertar da escravidão cultural a que eram submetidas as nossas cabeças, a minha inclusive", conclui Manga.Diretores Brasileiros - Carlos Manga - De 20/4 a 2/5 maio. Abertura às 19 horas com exibição de Nem Sansão, Nem Dalila, seguida de encontro com Carlos Manga. De R$ 2 a R$ 4. Centro Cultural Banco do Brasil, Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651.

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