Tribo de Tolkien faz a festa em SP

Fábio Cabral é carioca e ator. Estava no Rio, na sexta-feira, quando recebeu o convite para assistir à sessão especial de Os Senhor dos Anéis - As Duas Torres, que a distribuidora Warner promoveu no sábado para fãs da série, no Unibanco Arteplex, do Shopping Frei Caneca. Eles ocuparam as nove salas do conjunto - cerca de 1500 pessoas. Muitos foram vestidos a caráter. Hobbits, arqueiros, elfos e elfas, até um Gandalf. Cabral explica por que não resistiu ao apelo e atirou-se correndo para São Paulo: "A partir de hoje mesmo (sábado) o pessoal já começa a trocar e-mails, comentando o filme, e eu não ia querer ficar fora dessa, só ouvindo as opiniões dos outros."Há muitas tribos em São Paulo. Os blacks ocupam o interior da galeria do rock, no centro da cidade. Os darks têm seu ponto de encontro nos sábados à tarde na mesma galeria, na entrada da São João. Os são-paulinos reúnem-se no Largo do Paissandu, nos domingos de manhã. E os tolkienmaníacos encontram-se a cada duas semanas no Centro Cultutral São Paulo. No sábado, o ponto de encontro foi outro - no Unibanco Arteplex. Eles foram chegando desde 8 horas, cheios de expectativa. A primeira sala já estava lotada às 9, quando iniciou a sessão. Na hora seguinte, as outras oito salas também foram lotando de fãs chamados pelo Conselho Branco, o grupo que coordena as atividades de difusão da obra de JRR (John Randolph Reuel) Tolkien no Brasil, com direito a site (www.conselhobranco.com.br).Parecia um bando de malucos. Toda aquela gente fantasiada instalou a terra-média no Shopping Frei Caneca, que nunca esteve mais movimentado, pelo menos desde dezembro do ano passado, quando ali mesmo nas salas do Unibanco Arteplex, os fãs foram chamados para assistir ao primeiro filme da série, O Senhor dos Anéis - A Irmandade do Anel. Eles aplaudiram em cena aberta: cenas com Aragorn, Legolas, Gandalf, todas aquelas figuras míticas.Quando apareceu o nome de Tolkien na tela, a sala 1 quase veio abaixo. Fernando Torres, homônimo do ator (e diretor de teatro), tem 20 anos. Desde os 13 é um ávido leitor de Tolkien. Arrisca uma interpretação: "A gente é obrigado a ler muita coisa na escola, mas com o Tolkien é diferente. São mil páginas, só na trilogia de O Senhor dos Anéis, mas aqui a gente lê por prazer, não por obrigação. Não conheço ninguém que tenha começado a ler O Senhor dos Anéis e tenha parado no meio."Torres foi quem iniciou o amigo Martim Carbone, também de 20 anos, na leitura de Tolkien. Foi há quatro anos. Desde então, Carbone já leu várias vezes a trilogia e também os outros livros do autor. Um pouco por ser alto, Carbone vestiu sua fantasia de Gandalf e se destacava na sala de espera do Unibanco Arteplex. Mas ele não se vestiu daquele jeito só porque tinha o physique du rôle. "Gandalf é, para mim, o personagem central da trilogia. Ele é quem encarna o espírito do bem na luta contra Sauron e Saruman, que representam o mal."Quatro leituras completas de O Senhor dos Anéis e mais de O Hobbit e The Silmarillion fortaleceram nele a idéia de Tolkien como um grande autor. "O Tolkien escreveu O Senhor dos Anéis a pedido dos editores, mas Silmarillion, publicado só quatro anos após a morte dele, é a obra de uma vida inteira; é mais abrangante do que O Senhor dos Anéis e, inclusive, esclarece os pontos que a trilogia não consegue esgotar."Fábio Cabral também possui uma explicação para o fascínio que O Senhor dos Anéis desperta no público. "O Tolkien criou um universo totalmente fictício que é, ao mesmo tempo, absolutamente verdadeiro. Ele descreve tudo: paisagens, cidades, personagens. Cada montanha tem um nome, cada personagem é esmiuçado até se tornar real para a gente." Cabral é negro. Levou uma discussão importante no grupo dos tolkienmaníacos. Acha que o filme dirigido por Peter Jackson presta-se a um enfoque racista, porque transforma os inimigos dos hobbits e da terra-média em orientais e negros. Houve réplica e tréplica entre fãs da série, pela internet. Nem por isso Cabral ama menos o filme.Carbone, depois de tirar sua fantasia de Gandalf, admitiu que estava louco para voltar para casa. "Hoje mesmo vou começar a receber e-mails; tenho certeza que amanhã (domingo) minha caixa de mensagens estará lotada." Ele gosta muito dos filmes, mas também faz restrições. "A Arwen, no primeiro filme, é diferente do livro; estava com medo de que, no segundo, ela participasse da luta; ainda bem que ficou no canto dela." Ele lembra que o diretor Jackson anunciou que o segundo filme, por exigências dramáticas do roteiro, seria o que mais liberdades iria tomar em relação aos livros."Mesmo assim, assustei-me um pouco", diz Carbone. "O Faramir virou meio que um vilão; no livro, é um sábio e isso não passa no filme." Rossana Madolin, de 15 anos, também reconhece as diferenças entre livro e filme, mas gosta muito do resultado. Não acha que a paixão por Tolkien e sua literatura fantástica seja uma coisa passageira. "Ele criou um sistema para pensar o mundo que é muito rico e complexo. A cada leitura a gente descobre coisas novas. Tenho a impressão que os livros do Tolkien serão sempre uma fonte inesgotável de conhecimento para a gente." Fernando Torres fecha a discussão: "O amor pelo Tolkien não despertou em nós apenas o prazer da leitura. A cidadania, também. Formamos um grupo para contar histórias em hospitais e escolas, reatando uma velha tradição da literatura oral. Também doamos sangue e fazemos outras atividades comunitárias. O Senhor dos Anéis enche a vida da gente, mas não nos aliena do que ocorre ao redor. Pelo contrário, nos faz ser mais participantes."

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