Divulgação
Divulgação

'Três Lembranças da Minha Juventude' é um dos filmes mais encantadores da Mostra

Longa de Arnaud Desplechin aposta na chave memorialística

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2015 | 19h15

O título já entrega o que vem: em Três Lembranças da Minha Juventude, Arnaud Desplechin aposta na chave memorialística. Paul Dédalus, vivido na maturidade por Mathieu Amalric, relembra os anos de formação, na mocidade, quando já está na idade madura.

Ele é um etnólogo conhecido, trabalha no Quai D’Orsay (o Itamaraty francês) e lembra de como abraçou a vocação e como se relacionou com as moças, sobretudo com uma garota chamada Esther. Os primeiros romances, os ciúmes, a busca da vida livre, os amigos, a família (composta de irmãos e do pai, pois a mãe se suicidou) – tudo forma um amálgama de memórias que, às vezes, é interpretado pelos personagens e outras simplesmente narrado em primeira pessoa por Paul.

Pelo crescimento do protagonista passam várias fases da história contemporânea. Por exemplo, ele era jovem quando cai o Muro de Berlim, em 1989. Um rapaz de 19 anos, que vive o tumulto de uma relação pouco convencional com uma namorada também bastante diferente do comum das moças. Tumulto da história e da vida pessoal associados.

Paul Dédalus talvez não tenha esse nome por acaso. Lembra a estirpe grega, berço da civilização. Mas também Stephen Dedalus, o herói (e também anti-herói e alter ego) de James Joyce em Retrato do Artista Quando Jovem e Ulysses. O Dedalus de Desplechin também é um aprendiz. Um aluno pouco comum da vida, buscando alguma coisa que não sabe bem a princípio, mas depois conquistando a independência de pensamento que, sempre, é fruto de muito trabalho e desapego.

Não fosse o tipo de narrativa de Despleschin, o relacionamento entre os jovens Paul (Quentin Domaire) e Esther (Lou Roy-Lecollinet) seria igual ao de tantos outros. Mas Desplechin gosta da elipse. Elabora uma narrativa que vai e vem e, de repente segue em linha reta por um bom período. Beneficia-se, também, dessa ótima dupla de estreantes, que funciona perfeitamente em papéis exigentes. De fato, não são jovens convencionais, que vivem um namorico como outros. Envolvem-se de maneira muito profunda e pouco dependente das convenções.

O filme tira muito do seu encanto da maneira fluida como o diretor conta sua história. Fluidez, já se sabe, é uma virtude dos grandes narradores, em prosa, verso ou filme. Não é uma dádiva para todos. Os de Desplechin fluem como um rio tranquilo. O que faz de Três Lembranças de Minha Juventude um dos filmes mais encantadores da Mostra.

 

Mais conteúdo sobre:
Arnaud Desplechin cinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.