"Três Irmãs" investiga relações familiares

Chama-se Três Irmãs, o que sugere uma adaptação, mesmo livre, de Chekhov, mas no original é La Bûche, o bolo de Natal. É na semana do Natal que se passa o filme de estréia de Daniele Thompson na direção. Você é capaz de jurar que não sabe quem é. Pode-se apostar que sabe. Daniele é uma das roteiristas mais famosas da França. Começou no cinema popular, escrevendo, para o diretor Gérard Oury e o astro Louis de Funs, a comédia que permanece até hoje, 30 anos depois, como o maior êxito de bilheteria do país: A Grande Escapada. Mais recentemente, Daniele colaborou num cinema mais denso e intelectual, escrevendo A Rainha Margot e Ceux Qui m´Aiment Prendront le Train para Patrice Chéreau.Em Cannes, na coletiva de lançamento do segundo, ela anunciou que preparava a própria estréia na direção. Escrevia La Bûche com o filho, Christopher Thompson. E já dizia que seria dele um dos papéis principais. Começa num funeral. Morre o segundo marido de Yvette. As três filhas a acompanham no enterro. Uma delas, Louba, mora com o pai, o ex-marido que até hoje não perdoa o que considera a traição da ex-mulher. Três irmãs com suas carências, suas necessidades e frustrações. O pai e a mãe, dois velhos. E gravitando em torno deles, mas também integrado à família, o personagem de Christopher Thompson.É um filme sobre relações familiares, sobre como devemos perdoar os outros e a nós mesmos. Proporciona belíssimas interpretações a Sabine Azema, Emmanuelle Béart e Charlotte Gainsbourg, como as irmãs. Mas os grandes atores em cena são Françoise Fabian, que faz a mãe, Yvette, e Claude Rich, o pai, Stanislav. Françoise, que foi mulher do grande Jacques Becker, trabalhou com Eric Rohmer no maior de seus filmes: Minha Noite com Ela. Só isso já lhe garante um lugar de honra no panteão das divas do cinema francês. Claude Rich fez Eu Te Amo, Eu Te Amo com Alain Resnais.Numa breve - brevíssima - entrevista por telefone, de Paris, Daniele contou que, embora tenha se exercitado no humor, é no drama que se sente à vontade. As gags de A Grande Escapada são criações de Oury e De Funs; seu roteiro foi só uma "escada" para ambos. Diz que, quando se dispõe de um elenco como o que tinha em La Bûche, "pode-se ir fundo na investigação dos sentimentos". Queria falar sobre os esqueletos no armário de uma família. "Quer coisa mais universal?", pergunta. "Quem não tem problemas com o pai, a mãe, o irmão, o marido?" Já era o tema de A Rainha Margot, só que lá eram os grandes personagens da história. Aqui, são os pequenos personagens, os anônimos, mas a dor e a vontade de redenção são as mesmas. Há momentos em que a ação pára e o drama se intensifica, quando os personagens falam diretamente para a câmera, abrindo o coração. São momentos preciosos, mas o sublime é quando Sabine canta e Claude Rich toca ao violino Yidish Mamma para a genial Françoise Fabian.Três Irmãs (La Bûche) - Drama. Direção de Daniele Thompson. Fr/99. Duração: 106 minutos.

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