Três filmes inéditos no Festival do Ceará

O 11.º Cine Ceará começa no dia 22, em Fortaleza, com a exibição do longa-metragem Juazeiro - a Nova Jerusalém, de Rosemberg Cariry. O festival desse ano traz novidades. Uma negativa: não mais haverá a mostra de novos talentos, que trazia filmes de diretores estrangeiros estreantes. A positiva: foi substituída por uma mostra competitiva nacional. Seis filmes disputarão os troféus do festival cearense, entre eles três inéditos: Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho, O Fim do Sem Fim, de Beto Magalhães, Cao Guimarães e Lucas Bambozzi, e Onde os Poetas Morrem, de Werner e Willy Schumann. Os demais concorrentes já são conhecidos de outros festivais ou estrearam em outras capitais: Domésticas, de Fernando Meirelles e Nando Olival, Barra 68, de Vladimir Carvalho, e Latitude Zero, de Toni Venturi. Memórias Póstumas, de André Klotzel, é o outro inédito, que fecha o festival na semana seguinte, sem concorrer a prêmios. Além da disputa entre os longas, as outras atrações do festival são as mostras competitivas de médias e curtas-metragens no suporte vídeo e película.Mas nem apenas de competição vivem os festivais. Fortaleza, este ano, programou algumas retrospectivas interessantes. Uma delas é sobre o cinema cubano, trazendo filmes como La Bella de la Alhambra, de Enrique Pineda Bernaet, El Brigadista, de Octávio Cortázar, Lúcia, de Humberto Solás, Maria Antonia, de Sérgio Giral, Se Permuta, de Juan Carlos Tabío, e Nada, de Juan Carlos Cremeta. Esta retrospectiva cubana inaugura a nova proposta do festival. Ao invés de apresentar a mostra de novos talentos, a cada ano um país estrangeiro será lembrado e uma seleta de sua cinematografia apresentada ao público cearense.Haverá também uma retrospectiva do cinema cearense e outra consagrada ao maldito José Mojica Marins. Nesta serão exibidas três produções do Zé Caixão e um documentário sobre o diretor. Na ocasião, será lançado no Ceará o livro Maldito, que o jornalista André Barcinsky escreveu sobre Mojica.As mudanças no formato do Cine Ceará vieram pela constatação de que o público se interessava mais pelos filmes brasileiros apresentados do que pelas atrações internacionais. Em geral, a sala do tradicional Cine São Luis, no centro da cidade, ficava às moscas quando apresentava os trabalhos dos diretores estrangeiros estreantes, e espirrava gente pelo ladrão durante as sessões dos filmes nacionais. Um paradoxo dos festivais: neles, os produtos brasileiros valem mais que os estrangeiros, um fenômeno que mereceria estudo sociológico.A primeira idéia da coordenação do festival foi fazer uma mostra de pré-estréias nacionais. Quer dizer, uma vitrine, sem caráter competitivo. No entanto, como diz o diretor do festival, Wolney Oliveira, a tal da vitrine de pré-estréias cresceu de tal maneira que transformá-la em competitiva foi um fato que acabou por se impor. Realmente, se três inéditos se apresentaram para disputar os prêmios, a iniciativa se justifica.Os outros três, já conhecidos de parte do público brasileiro, podem agradar ao público cearense, mas não têm sabor de novidade. Domésticas põe na tela um estrato social normalmente esquecido pelos diretores brasileiros, mas enfrenta uma polêmica. Há quem ache o filme amoroso com as empregadas domésticas. Há quem prefira rotulá-lo de exercício de cinismo. Boa discussão, que talvez tenha até beneficiado o longa em sua carreira comercial. Nada melhor do que uma boa polêmica para levantar o astral de uma cinematografia meio anódina como a brasileira contemporânea.O documentário Barra 68, de Vladimir Carvalho, procura resgatar um episódio da história recente, a invasão da Universidade de Brasília durante o regime militar. Foi exibido na abertura do Festival de Brasília, em novembro do ano passado, fora de concurso. O outro longa em competição, Latitude Zero, de Toni Venturi, concorreu no Festival de Brasília, esteve no do Recife e terá agora nova oportunidade em Fortaleza. Trata-se de um filme difícil, instigante porém árduo, sobre um casal que vive uma situação-limite nos confins do País.Há poucas informações sobre os outros longas. De Janela da Alma sabe-se que é um documentário que faz uma investigação emocionada sobre o olhar. O Fim do Sem Fim registra o desaparecimento de certos ofícios e profissões no Brasil atual. E mais nada. Melhor assim, pois o que há de bom nos festivais são as novidades que conseguem apresentar. Por isso nada mais triste que festivais de filmes batidos, já resenhados até a medula do osso e cujos diretores e elenco foram entrevistados ad nauseam pela imprensa. Ineditismo ainda é a pedra de toque e o diferencial de festivais que se dão o respeito.

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