"Três Estações" questiona Vietnã dos anos 90

Fazer a radiografia de uma sociedade por meio das visões fragmentárias de vários personagens. O procedimento pode dar numa obra-prima como Short Cuts - Cenas da Vida, de Robert Altman, ou pode dar no muito mais modesto, mas encantador, Três Estações, de Tony Bui, um vietnamita criado nos Estados Unidos que com este filme ganhou os prêmios de júri e público do Sundance Festival, o templo do cinema dito independente.Três Estações tenta responder a uma questão: o que é a Saigon (hoje Ho Chi Minh) dos anos 90? Uma cidade onde a publicidade das multinacionais convive com abismos sociais. Se há os hotéis de luxo e turistas, existem também prostitutas que se oferecem a preços módicos (em dólar, of course). Há homens que ganham a vida conduzindo seus táxis-bicicleta, e garotos vendendo bugigangas pela noite. Uma florista ingênua cultua um poeta à beira da morte, e um americano está de volta ao país, procurando a filha que teve durante uma aventura em tempo de guerra. Harvey Keitel é o único gringo do elenco. Mais: ele é produtor-executivo do filme, feito provavelmente com ternura e interesse político, pois não é um ator qualquer. Conhece o país onde mora e o mundo onde vive. Sabe ler a história e não acha que olhar para o passado seja uma perda de tempo como outra qualquer.Como também entende a noção de responsabilidade histórica, mas tem o outro olho na tradição, Bui faz uma opção preferencial pela delicadeza. Mesmo quando retrata os desvãos de Ho Chi Minh, é gentil, terno, bondoso. Nem sempre a análise que apresenta é exatamente aguda e há um tom de romantismo um tanto acima do aceitável (o espectador verá) na maneira como as diversas histórias individuais se encaixam e se harmonizam em finais chegados ao artificialismo.Mas não é bem isso o que fica do filme. O espectador sabe que está mais diante de uma fábula, talvez de uma idealização existencial do que de um registro seco e factual. Portanto, fica mais a maneira sensível como a câmera enquadra e sabe respeitar o tempo de cada personagem. Fica o lirismo, que às vezes convive com a lama e certa grandeza moral, esta encontrável em meio à extrema pobreza, sem que se possa estabelecer uma relação de causa e efeito entre uma e outra, entre necessidade e virtude. O filme tem esse efeito agradavelmente hipnótico, que lembra, às vezes, aquele outro longa-metragem vietnamita, O Cheiro do Papaia Verde.São filmes de usos e costumes, mas Três Estações é um caso um tanto diferente. Bui procura mostrar como se mesclam as novas condições sociais àquilo que está enraizado nas tradições culturais do Oriente. Ao lado de uma modernização que traz, também, uma contrapartida predatória, sobrevive algo tão graciosamente artesanal quanto o cultivo das flores de lótus. Esta se aproxima por metonímia da poesia, pois o escritor é o dono da plantação. E as flores, levadas à cidade, encontram um estrangeiro dilacerado, que só fuma e observa e não sabe como se aproximar de uma filha que nunca viu. Há a tensão entre o comercialismo e a integridade, e esta se expressa na relação entre o homem humilde e a prostituta ambiciosa que ele deseja.Enfim, tudo poderia parecer esquemático, mas a forma como é filmado o redime do estereótipo. É, sim, um filme de boas intenções, mas isso por acaso pode ser usado como argumento contra ele?Três Estações - (Three Seasons). Drama. Direção de Tony Bui. EUA-Vietnã/98. Duração: 113 minutos. Cinesesc, em São Paulo, às 15 horas, 17h10, 19h20 e 21h30. 14 anos.

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