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'Três Corações', de Benoît Jacquot, traz no elenco Catherine Deneuve e sua filha, Chiara Mastroianni

Filme relata triângulo amoroso filmado à moda antiga

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

02 de maio de 2015 | 03h00

Quando apresentou Três Corações no Festival de Veneza do ano passado, o francês Benoît Jacquot o definiu como um “thriller amoroso”. Faz sentido. Nele há amor e também suspense, embora se possam colocar reparos na distribuição de doses tanto de um como de outro. 

A história tem como pivô o fiscal de impostos Marc Beaulieu, vivido pelo belga Benoît Poelvoorde. Ele vai fazer um trabalho qualquer numa cidade de província, perde o trem de volta para Paris e, por acaso, conhece Sylvie (Charlotte Gainsbourg). Os dois conversam, andam pelas ruas, simpatizam-se e dão início a um relacionamento, que pode prosseguir ou não, dependendo de um encontro marcado mais à frente no Jardin Du Luxembourg, em Paris. Ocorre que Sylvie tem uma irmã chamada Sophie (Chiara Mastroianni), que também acabará por entrar na história. Ambas são filhas de Madame Berger (Catherine Deneuve, mãe de Chiara na vida real). 

Assim descrita, a história parece tender para o melô, com antecedentes famosos, entre os quais Tarde Demais para Esquecer (1957), em que Cary Grant e Deborah Kerr combinam um encontro no alto do Empire State, em Nova York. No caso de Jacquot o local é o agradável parque parisiense, de fato propício para encontro de namorados. 

 

O quiproquó armado entre as irmãs também não parece grande novidade. Fornece, em todo caso, o tal suspense que Jacquot detecta como uma de suas fontes de inspiração para Três Corações. Quais serão os dois, desses três corações anunciados pelo título, que finalmente entrarão em ressonância e baterão em conjunto, de maneira harmoniosa? Tal é o thriller. 

Tudo indica, de qualquer forma, se tratar de um filme com tom antiquado. E Jacquot não parece se importar muito com isso. Há, de fato, um tom nostálgico, até mesmo na maneira como ele coloca em contraposição Paris (onde mora o fiscal) e a província, onde vivem as irmãs e a mãe. Paris é Paris e, à parte o encanto de “cidade luz”, padece em ser uma metrópole com problemas, engarrafamentos de trânsito, compromissos estressantes de última hora, que podem até mesmo atrapalhar o mais bem disposto dos amantes. Já a província possui seus atrativos. Anda-se tranquilamente à noite, os lugares são vazios, vive-se com mais vagar. Talvez até com certo tédio. Parece um clichê. E é. Tanto assim que Jacquot não identifica a locação, “pois todas as cidades de província se parecem”. 

Não que Jacquot deixe de incorporar o contemporâneo. Por exemplo, Marc perde tempo numa reunião com chineses que se expressam muito mal em francês. E a vida da província não se mostra tão idílica assim a ponto de ocultar a corrupção dos políticos locais. Tudo isso chega ao filme. Mas é na maneira de contar a história que o tom démodé se impõe. E, em todo caso, esses traços de “modernidade” entram meio de través, sem interferir no principal, o imbróglio amoroso. 

Outro fator que tem sido apontado como estranho, mas que parece ser um mérito do projeto, é a pouca adequação do bom ator Poelvoorde ao papel de galã. Simplesmente, ele não parece possuir o tipo físico para seduzir mulheres tão encantadoras quanto as interpretadas por Charlotte Gainsbourg e Chiara Mastroianni. A sóbria e exigente Cahiers du Cinéma fez esse reparo. Mas esse argumento parece mais implicância que outra coisa qualquer. Afinal, o cinema não é obrigado a trabalhar sempre com expectativas rígidas que, elas sim, são estereotipadas. Basta lembrar do subversivo Bela Demais para Você, de Bertrand Blier, em que uma pouco graciosa Josiane Balasko rivaliza com a deusa Carole Bouquet - e leva a melhor, ainda por cima. No cinema tudo é possível. Na vida, às vezes também. Só é preciso armar certa coerência para que os fatos façam sentido. 

Claro que, num ponto os Cahiers têm razão, quando apontam a tendência romanesca de Jacquot. O romanesco é a corrupção do romântico, uma espécie de derivado fora do tempo e do contexto original. Seja. Mesmo assim, admitida a crítica, o filme acaba sendo pelo menos agradável de ver. Muito em função do elenco. Afinal, Poelvoorde pode não ser um Cary Grant, mas é bom ator. Charlotte, Chiara e Catherine esbanjam charme. Três Corações pode não ser um grande filme. Mas está longe de ser ruim. 

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