Divulgação
Divulgação

Transitando entre gêneros

Filme de Alain Fresnot, 'Família Vende Tudo', é 'chique no úrtimo' como cara do País

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

29 de setembro de 2011 | 22h00

Chique no úrtimo - quantas vezes você ouviu a expressão? Era o título original de Família Vende Tudo, a comédia de Alain Fresnot que estreia hoje, com 150 cópias. Cadu Rodrigues da Globo Filmes, acha que o filme deveria sair com mais cópias, 250, mas a distribuidora PlayArte preferiu apostar num número mais viável. Fresnot faz as contas. Se cada uma dessas cópias fizer pelo menos 300 espectadores - um número baixo - no fim de semana, serão 45 mil espectadores. Como a regra matemática elementar multiplica por dez o resultado do primeiro fim de semana, Família poderia atingir 450 mil espectadores.

 

Seria um estouro - os filmes de Fresnot (Ed Mort, Desmundo) têm feito em torno de 100 mil espectadores. As projeções animam a expectativa, porque o índice de aprovação tem sido alto nas sessões de aferição. Mas conspira contra o fato de Família Vende Tudo não ser uma comédia ‘clássica’. O próprio Fresnot define seu filme como uma tragédia romântica que faz rir. Esse transitar entre gêneros faz a riqueza dos filmes brasileiros que estreiam neste fim de semana - Trabalhar Cansa, de Marco Dutra e Juliana Rocha, e Os Residentes, de Tiago Mata Machado, os outros dois -, mas isso também pode ser uma limitação para o público que é solicitado, nos três, a ir além do óbvio.

 

A produtora Maria Leão, não ligada a nenhum desses filmes, faz uma leitura interessante - ela diz que o impacto das classes C e D está mudando o perfil do espectador brasileiro (e do desempenho dos filmes na bilheteria). Não necessariamente ligado a um contexto de classe social, outro fenômeno vem ocorrendo - antes, eram só as animações, mas hoje cada vez mais os filmes saem em versões dubladas e legendadas. A Paris Filmes, por exemplo, aposta em que o público teen não gosta de ler e lançou Sem Saída preferencialmente em cópias dubladas. Quem se interessa em ouvir a voz do lobinho Taylor Lautner?

 

 

Que País é esse?, cantava Renato Russo. O que isso tem a ver com Família Vende Tudo? Em princípio, nada. Na realidade, tudo. Embora uma simplificação do título pudesse ser Família Vende Filha, o ‘Tudo’ justifica-se porque a família da ficção está abrindo mão da própria dignidade. Lima Duarte e Vera Holtz fazem o casal que, de cara, perde as muambas que foi comprar no Paraguai. Em São Paulo, o desastre completa-se quando a polícia, o ‘rapa’, também se apropria dos produtos vendidos pelo filho marreteiro.

 

Neste quadro, e devendo para o chefão da favela, a família investe num projeto audacioso - há esse cantor brega que não resiste a rabo de saia. O plano consiste em fazer com que a filha engravide dele. A pobreza, o kitsch, há um forte componente social, meio Ettore Scola, Feios Sujos e Malvados, em Família Vende Tudo. A religião integra-se ao quadro e, embora o filme se pretenda - e seja - crítico em relação a tudo, Fresnot tem carinho pelos personagens. Caco Ciocler, o cantor brega, só quer, como diz, ‘continuar com esse dom que Deus me deu’. Num elenco que investe com eficiência num certo tom caricatural, Caco e Marisol Ribeiro, a ‘filha’, são muito bons, mas Luana Piovani, fotografada com desleixo intencional, segura a onda como a esposa ‘chifruda’ que dá o troco. Chique - no úrtimo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.