'Transformers 4' tenta convencer público de que máquinas têm alma

Muita coisa do longa de Michael Bayremete remete a Spielberg

Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2014 | 09h00

Pergunte a nove entre dez críticos - a onze entre dez - e eles dirão que Michael Bay é o grande assassino do cinema popular e de ação. Bay, publicitário de formação, desde cedo se inclinou por um cinema espetacular à base de efeitos. Destruição em massa - carros sempre explodiram em seus filmes como se fossem balões em festas de aniversários. Com Transformers, ele iniciou sua série épica sobre carros-robôs. Stanley Kubric k, em 2001, antecipou um futuro sombrio em que a máquina, o sinistro computador Hal-9000, tenta dominar o homem. Bay reformulou o futuro kubrickiano. Concebeu um mundo em que máquinas do bem se unem aos humanos para combater máquinas do mal.

O cinema espetacular é um gênero difícil. Máquinas não atuam e, portanto, não é fácil convencer o espectador de que elas podem ter 'alma'. O grande desafio de Transformers, a série, é justamente esse. Convencer, por meio da montagem e de certas imagens emblemáticas - o 'olho' da máquina, na verdade, apenas uma luzinha piscando -, que algo ético, como um conflito, está se passando na tela. Em Transformar (4) - A Era da Extinção, Bay mudou todas as faces humanas, com exceção de John Turturro. Sai Shia Labeouf e entra Mark Wahlberg com a filha Tessa, de 17 anos e um corpaço de mulher adulta (Nicola Peltz), e o genro, Duane.

Wahlberg, como Code Yeager, faz um inventor cujas criações não costumam dar certo. Ele encontra num velho cinema abandonado, e o detalhe é decisivo, um caminhão que se revela ser Optimus Prime, alvo de uma caçada implacável. Os Autobots não são mais aliados dos humanos e o próprio Turturro se aliou a um agente corrupto que pretendem usar um material chamado Transformium para construir uma armada de Transformers (do mal), para com eles dominar o mundo. O líder dessa nova leva de máquinas faz referências veladas a um poder intergaláctico que criou todas as máquinas - e que Optimus traiu ao se unir aos humanos. Turturro, naturalmente, vai dse dar conta do que está fazendo (e recuar), mas até que isso ocorra Bay já construir sua metáfora sobre o cinema (e a América).

Muita coisa em A Era da Extinção - o tema da família - remete a Steven Spielberg, que, em Guerra dos Mundos, assimilou lições de um clássico de John Ford, Rastros de Ódio (The Searchers). Quando Code, Tessa e Duane pegam carona no velho caminhão, Optimus Prime parte em busca dos últimos parceiros que se refugiaram em... Monument Valley, um solo sagrado do cinema, onde Ford filmou seus westerns, mostrando como se constrói uma civilização. Os westerns de Ford são a salvaguarda de valores humanos e éticos e Bay está querendo nos fazer refletir sobre o que restou não só desse cinema, mas desses valores.

Na velha sala em ruínas, alguém observa que as sequências e remakes mataram o cinema, mas o cartaz de clássico que ornamenta a parede é o de Eldorado, western de Howard Hawks, com John Wayne e Robert Mitchum, que é um remake de Rio Bravo (Onde Começa o Inferno), do próprio Hawks, com Wayne e Dean Martin. Michael Bay permeia A Era da Extinção de ironias e observações que compõem uma espécie de discurso, para não dizer tomada de posição, sobre o futuro do cinema. Transformers 4 é para ver em Imax, 3-D, com toda a parafernália técnica de que dispõe. Em 2-D, numa tela pequena, e baixado da internet, não vai fazer o menor sentido.

O filme tem 2h40 e sua arquitetura dramática converge para o combate final, que dura sozinho mais de 40 minutos. E é um combate épico, insano. Bay usa novas máquinas e modelos de carros e aviões para, no limite, ressuscitar os dinossauros high tech de Spielberg. Por mais massacrante que seja esse combate, faz sentido. E que Transformers - A Era da Extinção tenha tido, nos EUA, a maior abertura de um único dia é a prova de que as máquinas de Bay continuam quentes, muito quentes para o público.

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