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Trama do filme chinês 'Rua Secreta' tem toques de Hitchcock

Com direção de Vivian Qu, mistério intriga relação entre jovens 

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 04h00

Rua Secreta, de Vivian Qu, trabalha no limite sensível entre o domínio do olhar e o gênero fantástico. O filme chinês põe em cena um jovem engenheiro, Li Qiuming (Yulai Lu), que está iniciando seu trabalho numa empresa de cartografia digital. Em companhia de um colega mais experiente, Li realiza as medições num bairro da cidade de Nanjing. Mas o que atrai seu olhar não é tanto a distância entre o aparelho de precisão e a esquina de uma avenida quanto a doce figura feminina que aparece através das lentes. Trata-se da também muito jovem Guan Lifen (Wenchao He), que trabalha num dos prédios da rua onde os engenheiros fazem seus cálculos. 

Na verdade, é a tal rua, onde fica a empresa na qual trabalha Guan, que representa um problema. Um paradoxo, de fato, pois ela não tem existência na cartografia traçada pelos profissionais. É quase como um objeto virtual, que se esconde aos instrumentos. Os engenheiros a veem, mas quando vão buscá-la no mapa, não a encontram. Essa impossibilidade (que remete, conceitualmente, aos objetos paradoxais de Escher) desperta a curiosidade de Li. Ele decide, então, descobrir o que se passa nessa rua que ora parece existir, ora desaparece, como se fosse um endereço fictício. Engenheiros costumam ter a mentalidade cartesiana e não aceitam com facilidade esse tipo de dubiedade. Daí, a dupla natureza da rua representar um desafio para o jovem. 

Esse é um início promissor do filme. Um grande mistério, alimentado também pelo desejo do rapaz pela moça. Com essa dupla motivação – o amor e a curiosidade –, Li não vê motivos para recuar diante de perigos que, ele pressente, talvez se escondam nessa misteriosa rua sem saída.

 

A delicadeza com que a trama inicial é composta prepara o espectador para um filme intrigante. Talvez até mesmo notável. De fato, Vivian trabalha com uma série de referências cinematográficas, entre as quais não é difícil de entrever a influência principal – a de Alfred Hitchcock, o chamado mestre do suspense. Ora, o velho Hitch tinha essa sensibilidade muito especial para as questões da culpa e do olhar. Basta lembrar de clássicos como O Homem Que Sabia Demais, Janela Indiscreta e Um Corpo Que Cai. Há, neles, um trato refinado com a questão da culpabilidade, a formação imaginária do amor e a estrutura com que o olhar conforma a realidade. São temas, eles também, clássicos, por sua vez. 

Avançando por esse terreno, pode-se dizer que Vivian produz um trabalho interessante, mas que não se desenvolve em sua segunda parte da maneira promissora entrevista na primeira. Se o manejo das imagens é bom, e feito de maneira a deslocar a percepção do espectador, pode-se também dizer que falta à trama outro tanto de imaginação que a sustente. Não é raro que isso ocorra com filmes promissores. Eles tomam o espectador pela mão, o conduzem ao centro de uma trama misteriosa e, quando têm de entregar algo que de fato justifique tanto mistério, acabam deixando o público meio que a ver navios. Muito barulho por nada, tem-se vontade de dizer. 

Dito isso, deve-se reconhecer que Rua Secreta é um bom filme – ainda mais se levarmos em conta o nível médio do que vem pintando atualmente nas telas dos cinemas. Mostra uma diretora de mão firme, conduzindo um elenco de qualidade e que perde em intensidade apenas em virtude de um roteiro que contém fragilidades em seu miolo. É aquela história de sempre: não adianta apenas filmar bem para se criar uma obra de qualidade. É preciso pensá-la de modo adequado também. 

Parafraseando aquilo que Leonardo Da Vinci dizia da pintura, podemos dizer que também o cinema é “cosa mentale”. Mas muitas vezes os cineastas não acreditam nisso.

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