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Trama de '360' é costurada por dilemas e urgências modernas

'Todos os personagens são gente boa tentando acertar, lutando contra seus impulsos', diz diretor Fernando Meirelles

Flavia Guerra - O Estado de S. Paulo,

30 Julho 2012 | 20h30

Fernando Meirelles está iniciando um novo ciclo: a pré-produção de outro projeto inglês, Nemesis, longa que deve rodar em novembro. Com roteiro de Braulio Mantovani (Cidade de Deus e Tropa de Elite), é a cinebiografia do armador grego Aristóteles Onassis. "É a história do ódio entre Onassis, o homem mais rico do mundo nos anos 60, e Bobby Kennedy. Explosiva cheia de revelações e escândalos", adianta Meirelles, que para tocar Nemesis adiou as filmagens de Grande Sertão: Veredas. "Desisti. Seria muito caro. E creio que não haja no Brasil hoje um público interessado numa história de jagunços que falam esquisito. Ao menos não tanta gente que justifique o investimento de recursos e tempo no projeto, por mais que eu o adore." Sobre entusiasmo, natureza humana e, claro, 360, seu novo filme com estreia prevista para o próximo dia 17, Meirelles conversou com o Estado:

Você se interessa pelos tipos e pessoas, concorda? O que mais o encanta em 360?

Concordo. Gostei muito, por exemplo, de pegar o personagem do Ben Foster, um estuprador de quem ninguém iria gostar, e tentar humanizá-lo. Torço por ele e entendo seu drama. Ele quer ter um trabalho e uma vida normal. Só não consegue domar o furação que tem dentro de si e por isso se sente muito só. Adoro o detalhe dele tocando o pé da menina no telefone ou o braço do cara no aeroporto. Para mim, aquilo não é sobre sexo, é sobre a necessidade desesperada de contato humano. Cada história tem detalhes desse tipo. Foi aí que viajei.

Há sempre risco em um filme mosaico, pois pode dar a impressão de não se aprofundar, não?

Sim. Se olharmos cada história do filme, ela pode parecer meio leve, pois o filme só funciona mesmo quando tentamos entender as conexões entre as histórias. E neste tema da briga interna e das escolhas, cada escolha afeta não só nossas vidas mas cria também uma corrente de reações que não tem fim. Aliás, foi uma briga para convencer meus produtores que o filme não deveria acabar com a Rachel e o Jude indo embora felizes, mas sim com um novo círculo que começa. Na vida de verdade não tem fim. E me pareceu fazer mais sentido começar uma nova história, sugerindo que a engrenagem não para nunca. Há processos e encontros apenas.

E há o fator humano, as escolhas que se faz, ou não?

Sim. Não há um antagonista. Todos os personagens, inclusive o do Ben Foster, são gente boa tentando acertar, lutando contra seus impulsos e desejos que os desviam do que planejaram. Situação muito humana. Assim que li o roteiro me lembrei de O Mal-Estar na Civilização, do Freud, que li ainda na faculdade. A ideia de que precisamos sempre reprimir nossos impulsos para poder criar cultura, família, sociedade ou civilização sempre me acompanhou e me incomodou. Depois de 82 anos desde que o texto foi publicado, ainda não superamos esse conflito. É como se a nossa felicidade - ou nossa plena realização - não fosse compatível com o mundo civilizado. Difícil escolha entre o racional e a ordem e o lado primitivo e a paixão. É muito comum esse conflito em filmes em que a mulher fica dividida entre o marido que lhe dá segurança e estabilidade e o que a faz subir pelas paredes. Como nem todo mundo é a Dona Flor, que pode ter os dois, essa é uma escolha sempre difícil.

Você se considera observador da natureza humana? É o principal material de seus filmes?

Fiz filmes em que uso personagens para falar do mundo onde estão ou no qual estão envolvidos. Este é o primeiro no qual o foco são os próprios personagens e não o seu universo. Era exatamente isso que queria fazer desta vez. Não desejava um novo filme sobre algum fato ou ideia, mas sobre pessoas. Bem mais simples. Se é que pessoas possam ser simples. Mas, sim, sou um observador, creio. Em roda de amigos ou festas, em geral escuto 95 frases e falo 5. Sem querer, fico acompanhando as conversas como se fosse uma peça de teatro. Acho que essa natureza introspectiva faz a gente virar um observador.

Foi ideia sua colocar os brasileiros? Quanto colaborou no roteiro?

360 tem pouca relação com Ronda (peça de Arthur Schnitzler, de 1987, que inspirou o longa), a não ser a estrutura meio circular e o fato de ambas as histórias começarem e terminarem em Viena com uma prostituta. Ao receber o roteiro, já havia os brasileiros, da forma como estão no filme. Este é mesmo um filme do Morgan. Minha colaboração no roteiro foi encontrar algumas transições interessantes de uma história para a outra.

 
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