Trajetórias de ricos e pobres são temas marcantes do Oscar 2014

De 'O Lobo de Wall Street' a 'Nebraska', salta o contraste da desigualdade

Jake Coyle, Associated Press

18 de fevereiro de 2014 | 18h41

No início de Capitão Phillips, um capitão de cargueiros (Tom Hanks) e sua esposa (Catherine Keener) vão de carro de sua casa em Vermont até um aeroporto onde ele pegará um voo até seu próximo trabalho, um que o colocará frente a frente com pessoas menos afortunadas do outro lado do mundo. Assim como muitos casais, eles conversam sobre instabilidade financeira. “Parece que o mundo gira rápido demais”, diz Phillips, pensando sobre o futuro que deixará ao filhos. “Tudo está mudando.”

Muitos dos filmes indicados ao Oscar 2014 estão cheios de sentimentos de incerteza, enquanto navegam pelas águas profundas que separam os ricos dos pobres.

A cerimônia é uma das festas mais famosas de Hollywood, mas está incluída nela o tema da desigualdade, que é visível nos filmes indicados este ano: nas cidades em ruínas de Nebraska, na rica que caiu em desgraça de Blue Jasmine , na história de golpistas tentando enriquecer de Trapaça, e em O Lobo de Wall Street.

 

 

Divulgação

 

 

O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, com cinco indicações, é o mais debatido. Ainda que se passe no final da década de 1980, começo dos anos 1990, seu retrato dos excessos dos corredores da bolsa tocou nos nervos do público contemporâneo, mas também polarizou as opniões. Há quem diga que a história glorifica Jordan Belfort, o personagem vivido por Leonardo DiCaprio. “Qual é a emoção por trás desse filme?”, pergunta Scorsese. “Há muita raiva. Eu não fui até Wall Street, então esta é uma maneira de expressar a frustração, e também de reconhecê-la. Isso não passa se simplesmente dermos as costas.”

Muitos dos candidatos ao Oscar deste anos foram escritos ou planejados quando movimentos como o Occupy Wall Street aconteciam, no final de 2011, por exemplo. Foi um tempo em que a raiva e a distância entre os ricos e os pobres mais se polarizou.

Mesmo que tenham sido concebidos antes disso, alguns títulos trazem em si a energia dessa época. É o caso de Nebraska, de Alexander Payne, indicada em seis categorias, que traz no papel principal um senhor de idade (Bruce Dern), que acredita ter ganhado US$ 1 milhão após receber uma carta de propaganda pelo correio. Payne conta que seu filme em preto e branco sobre as vidas que se desenrolam no centro dos Estados Unidos tem “um pouco de comédia” e também um “tema subjacente de despetdício, perdição e desolação. Assim, todos esses elementos aparecem, ainda que de forma mais palpávemos quando filmávamos”.

 

Blue Jasmine, de Woody Allen, que pode render o prêmio de melhor atriz a Cate Blanchett, é inspirado, segundo o diretor, na história de uma família de Nova York que foi arruinada pelo colapso financeiro. “Não é tanto sobre a fraude monumental e histórica em que se envolve o marido da personagem, mas a traição doméstica o que se torna mais doloroso e moralmente repugnante para ela”, explica a atriz.

Em Trapaça, de David O. Russel, indicado a 10 Oscars, quase todos os personagens vivem alguma fantasia e esperam aproveitar-se dela. “Todos estamos enganando alguém em algum momento para sobreviver nesta vida”, diz o personagem de Christian Bale numa cena enquanto ajeita sua peruca.

Outro tema recorrente nos filmes considerados alguns dos melhores de 20013 é a sobrevivência. Ele está na sobrevivência de uma astronauta perdida no espaço em Gravidade (10 indicações) e na odisseia de um negro em 12 Anos de Escravidão (9 indicações). Também em Até o Fim (uma indicação).

 

Capitão Phillips compete por seis prêmios, incluindo melhor filme. Facilmente pode ser contado da perspectiva do herói norte-americano, disse Tom Hanks. Mas o longa centra sua atenção nos piratas somalis, que vivem em estado de pobreza e corrupção. “Todo barco que passa por ali tem carros BMW, tênis, televisores… Diante de toda aquela desesperança, força um certo nível de análise e de dramatização. Não seria o mesmo filme se não tivesse esse elemento.”

TRADUÇÃO DE CLARICE CARDOSO

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