Trajetória de Lula, das greves à Presidência

Um multifacetado painel da história política brasileira contemporânea pode ser visto nos documentários Peões, de Eduardo Coutinho, e Entreatos, de João Moreira Salles, ambos com estréia nesta sexta-feira, em São Paulo e no Rio. No filme de Salles acompanha-se os bastidores da campanha vitoriosa de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2002. Peões mostra outro lado da história. Em São Paulo, os filmes entram em cartaz nas mesmas três salas de exibição - justamente para se ver como um pacote. Em Brasília, onde ocorre a 37.ª edição do tradicional Festival de Cinema da cidade, Peões será exibido hoje à noite em concurso e Entreatos fecha o festival, em exibição fora de concurso, no dia 30. Os documentários rendem polêmica com a cena cortada de Peões, em que a dona de um a lanchonete dizia que Lula bebia demais, e a mantida em Entreatos, em que Lula diz que tinha garrafa de cachaça com seu nome num boteco.Coutinho vai atrás dos anônimos grevistas de 1979/80, no ABC, e tenta descobrir como vivem hoje e como se recordam das lutas daquela época. São histórias de contrastes que se complementam. Em Peões são antigos metalúrgicos que aparecem, hoje estão aposentados ou voltaram para suas cidades, algumas no Nordeste. A maior parte recorda as greves comandadas por Lula como um momento excepcional em suas vidas. Aquele momento em que se sentiam "fazendo história". É o caso da mulher que lembra com orgulho de ter escondido da polícia a cópia de um filme (Linha de Montagem, de Renato Tapajós) e assim ter salvado um documento histórico sobre a greve. Em Entreatos, surge a história do "peão que deu certo" e está a caminho da posto máximo da República. No filme de João Moreira Salles vemos um Lula desenvolto, piadista, certamente posando para a câmera, mas com muita espontaneidade. Vemos o candidato sendo barbeado, enquanto concede uma entrevista por celular, e exultando quando recebe o apoio de empresários à sua campanha. Saia-justa - Há momentos de saia-justa registrados no filme, com José Dirceu estranhando a presença de cineastas na intimidade da campanha e perguntanso: "Quem é esse pessoal?". Não faltam indiscrições também em Peões, a principal delas é quando a dona de uma lanchonete, diz que o atual presidente bebia demais. A cena acabou sendo cortada da versão final do filme, segundo o diretor Eduardo Coutinho para proteger, não Lula, mas a própria personagem que dá o depoimento. "Eu acabei me convencendo de que ela seria hostilizada, tida como traidora de classe e então, pela primeira vez na minha carreira, cortei uma fala de personagem depois que o filme já estava montado", disse Coutinho. Em Entreatos, Lula diz que ele e seus amigos iam na hora do almoço a um boteco onde tinham garrafas de cachaça com seus nomes gravados no rótulo. "A gente tomava três, quatro doses de pinga, comia um prato de comida da altura de um Pão de Açúcar, em 15 minutos, e depois ia jogar bola no sol quente", diz. Para o diretor do filme, João Moreira Salles, "é um registro da cultura operária", diz. "Se alguém disser que um executivo toma dois dry martinis e depois vai jogar golfe antes de voltar para o escritório, ninguém vê problema nenhum. A reação escandalizada não passa de sintoma de preconceito de classe", acredita o cineasta. Há uma cena em que o marketeiro Duda Mendonça dirige a campanha, enfatizando o que Lula deve ou não dizer. "As pessoas têm medo do Lula grevista", insiste. "Você é um ex-sindicalista, agora está a caminho de ser o presidente da República", diz. Há uma passagem que fica engraçada e não despertaria a atenção meses atrás, quando Duda Mendonça diz que entende muito de futebol - e de brigas de galos. Talvez as melhores seqüências sejam aquelas filmadas no jatinho usado na campanha. A intimidade no aviãozinho, o tédio do vôo, forneciam as condições para que o candidato se abrisse. Numa delas, Lula relembra a fundação do Partido dos Trabalhadores. Em outra, Lula, um tanto melancólico, já antevê alguns problemas para quando assumir o poder. Teme ser engolido pela máquina burocrática. E receia a influência dos militares: "Aqueles militares, atrás de mim, dando palpites, como fazem com o Fernando Henrique Cardoso, me incomoda demais, demais, demais..."

Agencia Estado,

26 de novembro de 2004 | 13h10

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