Tragédia marca estréia de documentário no Rio

Fala Tu estréia hoje no Festival do Rio 2003 carregando o peso de uma tragédia. Erika Safira, produtora-executiva do filme, morreu no domingo, vítima de um acidente com a lancha em que estava passeando com amigos, no caminho de volta de Angra dos Reis para o Rio de Janeiro. O diretor Guilherme Coelho, 24 anos, e o argumentista Nathaniel Lecrery, 26, lamentaram o acontecimento, mas evitaram fazer ligações entre a fatalidade que se abateu sobre a colega e as duas outras que registraram ao longo das filmagens. "Éramos muito próximos, mas ela também estava ligada a vários outros filmes da produtora (Videofilmes)", explicou Guilherme. "O que aconteceu com os personagens também foi trágico, mas não temos como controlar o destino das pessoas", rebateu Nathaniel.O filme acompanha o dia-a-dia de três personagens da Zona Norte carioca. Macarrão, 34 anos, trabalha como apontador do jogo do bicho no Morro do Zinco, no bairro do Estácio de Sá. Togum, 32, ganha a vida como vendedor de produtos esotéricos. E a única mulher do grupo, Combatente, 21, faz expediente como operadora de telemarketing. Além da localização geográfica, eles têm em comum o envolvimento com o movimento hip hop carioca, através de sua vertente musical, o rap. Todos querem, de alguma forma, transformar as suas vidas por meio da música e, eventualmente, do sucesso.Dois desses personagens sofrem tragédias pessoais ao longo das filmagens. Togum perde o pai, debilitado por um câncer na próstata. E Macarrão, a mulher, Mônica, no parto de seu quinto filho, o único menino da prole. Alguns dos momentos mais fortes do filme vêm justamente da interação dessas duas duplas. Como quando Togum apresenta o pai pela primeira vez às câmeras, no hospital, e canta com ele um samba famoso que tem como tema a Guerra de Canudos e Os Sertões, de Euclides da Cunha. Ou como nos momentos em que a câmera capta a atribulada, porém carinhosa, relação entre Macarrão e Mônica. Quando Macarrão e Togum perdem seus entes queridos, a sensação de apreensão por parte de quem vê é quase instantânea.Guilherme e Nathaniel contam que começaram a filmar em julho de 2002. A idéia era acompanhar cada um dos personagens durante três dias, avaliar o material captado e discutir a possibilidade de retomar as filmagens logo em seguida. Foi o que fizeram e, nesse espaço de tempo, as mortes ocorreram. "Não havia esse arco de oito meses que divide o filme", conta Guilherme. "Como não havia dinheiro, discutimos muito o que iríamos fazer."Foram captadas 72 horas de material, das quais resultaram duas versões. Uma para cinema, ampliada para o formato 35mms, com 74 minutos de duração. E outra para a televisão, com 52 minutos. A dupla informa que já vendeu o filme para uma emissora de televisão finlandesa, a YLE, embora o contrato ainda nem tenha sido assinado. E que está negociando a venda com a Globosat. O custo do filme até o momento está em R$ 150 mil, financiados pelo BNDES. "Estamos tentando levantar mais dinheiro junto à Ancine para a finalização", diz Guilherme.Serviço - Fala Tu, de Guilherme Coelho, será exibido hoje (dia 1º de outubro), no Cine Odeon, às 12h30 (para o público) e às 19h (para convidados); e amanhã, na Casa Rui Barbosa, às 14h e às 18h30 (sessão seguida de debate).

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