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Traga seu filme aqui e depois corra

Montenegro, Peru e Equador investiram pesado para passarem de candidatos aspirantes à categoria de concorrente de fato

John Anderson, The New York Times

07 de janeiro de 2014 | 02h08

"Não somos um grande país", disse o diretor Drasko Djurovic numa entrevista em sua casa em Montenegro. "Somos como o Bronx." Por isso, ele está muito grato por fazer parte da cerimônia do Oscar. "Significa uma grande oportunidade para projetos futuros." O diretor peruano Adrián Saba concordou. "As pessoas ouvem a palavra Oscar e tudo muda. O mesmo vale para o Equador", garantiu o cineasta Javier Andrade. "Essa palavra deixa as pessoas loucas. Mas é salutar para nós."

Na verdade nenhum deles ganhou um prêmio da Academia por um filme em língua estrangeira. Nem mesmo indicação. E não estão na lista que a Academia divulgou no mês passado dos pré-candidatos de filme estrangeiro, antecipando o anúncio dos cinco finalistas, que será feito agora em janeiro.

Mas os seus filmes: Ace of Spades: Bad Destiny, de Montenegro, El Limpiador, do Peru; e Porcelain Horse, do Equador - foram selecionados para representar seus respectivos países na 86.ª premiação do Oscar. E isso pode render grandes frutos. Como disse Tom Bernard, copresidente da Sony Pictures Classics, "uma indicação para o Oscar é algo terrivelmente importante para o país de onde vem o filme. E se for vencedor, é como se tivesse ganho a Copa do Mundo". E é também um empreendimento caro: elevar um candidato aspirante à categoria de concorrente de fato implica dinheiro e os cineastas de países mais pobres com frequência precisam esmolar junto às associações nacionais de cinema, produtores, agentes, festivais e até secretarias de turismo e conseguir dinheiro para garantir as suas chances.

"Uma campanha decente custa US$ 50 mil", afirmou Tatiana Detlofson, relações públicas de Los Angeles, que trabalha com campanhas voltadas para o Oscar de filme estrangeiro há 13 anos, incluindo cinco nesta temporada. "Os realmente bons, de países como Bélgica ou Alemanha, envolvem um custo de US$ 100 mil. E o dinheiro normalmente é gasto em anúncios. "A propaganda em periódicos dedicados ao setor, como Variety e The Hollywood Reporter, é obrigatória. "Alguns de meia página e outros com página inteira consomem um terço do orçamento." E depois há as exibições em cinemas.

Embora os membros da Academia assistam a todos os filmes inscritos ao Oscar no Samuel Goldwyn Theater em Hollywood, existe a possibilidade de uma exposição mais ampla: Variety, The Los Angeles Times e o website The Wrap fazem promoção dos aspirantes ao Oscar cobrando US$ 10 mil por filme, que inclui entrevistas após as exibições e alguma propaganda. E depois há os gastos com cachês, convites, estacionamento, da equipe no local e até mesmo com brindes como chaveiros peruanos.

Segundo Adrián Saba, a PromPeru, organização que promove a cultura peruana, outorgou US$ 32 mil. Andrade levantou no Equador US$ 120 mil.

E Djurovic conseguiu o suficiente para uma exibição durante o American Film Market em Los Angeles (pouco mais de US$ 2.000) e um bilhete de avião de ida e volta de Montenegro (país que tem seu primeiro filme inscrito para o Oscar).

Uma campanha para um Oscar que você não vai ganhar vale mais do que US$ 100 mil? Provavelmente não, disse Kathleen McInnis, consultora de publicidade e estrategista da área que se encarrega da campanha do filme de Saba. "E US$ 50 mil?. Provavelmente sim, se você está investindo na sua carreira de cineasta." O orçamento para o filme equatoriano foi "razoável para uma campanha ter algum significado", afirmou ela. "Mas é suficiente para conseguir atenção? Muito difícil".

Outra questão é saber se o gasto traz algum benefício.

"Nunca vi campanha publicitária ajudar um filme estrangeiro a entrar na lista dos selecionados", adiantou Michael Barker, copresidente, ao lado de Bernard, da Sony Pictures Classics. Os dois são grandes vitoriosos na categoria língua estrangeira (com 12 filmes vencedores e 32 indicações durante os 33 anos de vida da companhia).

"É uma categoria muito difícil. Não acho que esse tipo de campanha funcione. Não há muita gente que trabalha com filmes em língua estrangeira, mas muitos trabalham com esses filmes por ocasião do Oscar", reforça Barker. Se todo esse trabalho de promoção se traduzir em prêmios isso estaria em contradição com as próprias regras da Academia.

"Quanto ao restante da votação da Academia, a finalidade específica é premiar a paixão", informou Cynthia Swartz, veterana em campanhas para o Oscar e presidente da Strategy PR, com sede em NY, referindo-se ao sistema de votação preferencial usado para as indicações de melhor filme, por exemplo.

Não é o caso na competição pelo melhor filme estrangeiro, (ou documentário). A primeira votação é baseada na média de uma escala que vai de 1 a 10, determinada pelos membros da Academia que assistem aos 76 filmes inscritos de todo o mundo - e não na média ponderada usada em outras categorias, em que um filme pode ser indicado para o Oscar de melhor mesmo se apenas 5% dos que votaram o classificaram para número um.

"Se você tem uma exibição estupenda, mande o filme de volta para o seu país", disse Mark Johnson, produtor (de filmes como Rain Man) e chairman da comissão do Oscar para produções de língua estrangeira.

"Estou brincando, mas posso afirmar que, se alguém assistir ao seu filme na Academia e lhe der um 10, não vai conseguir melhor do que isso." Naturalmente, os concorrentes não saberão, porque as notas são confidenciais. Nem sabem quem são os eleitores. A Academia não divulga nenhuma informação, embora profissionais como Tatiana Detlofson tenham reunido listas de membros durante seus anos de trabalho na área.

E além disso, o próprio Oscar pode não ser a única razão para entrar na loteria do prêmio. "A Academia diz: inscreva seu filme, mesmo que só 10 deles sejam objeto de debates pelos membros. Mas então, qual é a finalidade de inscrever o filme? O fato é que existe uma pequeníssima chance de se obter nota 10. Mas o fato é que esta é também a época do ano em que Hollywood presta atenção em filmes estrangeiros. Isso significa que posso conseguir que o cineasta para o qual trabalho apareça para um público que, do contrário, jamais veria o seu filme, além de realizar encontros com agentes e produtores porque ele fez parte da seleção oficial do seu país. Posso apresentá-lo às pessoas, não tanto por esse filme, mas para ele obter ajuda para outras produções", acrescenta McInnis. TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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