"Traffic" é semidocumentário sobre mundo da droga

É o grande favorito do Oscar de 2001. Todos os indicadores apontam para a vitória de Traffic que estréia nesta sexta-feira. O diretor Steven Soderbergh concorre com ele mesmo à estatueta da academia, pois também foi indicado, nas duas categorias, filme e direção, com Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento. Não é uma situação inédita, mas não ocorria havia mais de 60 anos. O favoritismo de Traffic baseia-se numa série de fatores. Soderbergh concorre duas vezes e esse filme é melhor ou, pelo menos, mais forte. Trata de um tema contemporâneo e polêmico, as drogas. Gladiador, que também está entre os cinco indicados, pode ser melhor, mas só doido para premiar Ridley Scott, que derruba a própria candidatura ao assinar, com Hannibal, um dos piores filmes do ano, da década, do começo do milênio. Ok, há um filme melhor do que todos esses - mas Quase Famosos, de Cameron Crowe, teve de contentar-se com algumas indicações secundárias. Se estivesse entre os cinco seria, de longe, o melhor. Você vai ver na semana que vem, quando estrear.Com Erin Brockovich, Soderbergh partiu de uma história real, transformando-a numa típica ficção hollywoodiana sobre a mulher batalhadora. Não é ruim e JuIia Roberts deve levar o Oscar, mas... Com Traffic, o cineasta segue o caminho inverso. Cria uma ficção sobre o tráfico de drogas na fronteira do México com os EUA e a trata como um documentário. É o aspecto mais interessante de Traffic, o que realmente conta pontos para o filme. Soderbergh pode nem saber, mas está trazendo, para os anos 2000, o partido de Phil Karlson, um pequeno mestre do filme B, nos 50, que era medíocre trabalhando em fantasias e ficções, mas excedia quando fincava o pé na realidade. Cidade do Vício, de 1955, é um clássico sobre a criminalidade urbana.Por melhor e mais interessante que sejam a narrativa de Traffic e também a qualidade da interpretação - só Benicio del Toro está indicado para o Oscar de coadjuvante, mas Don Cheadle está tão bem quanto ele e o elenco é todo primoroso -, o filme tem limites claros. É "do bem", o que reduz consideravelmente não só seu alcance, como sua eficácia. Traffic inscreve-se na corrente do paradoxo que se pode definir como "ousadia convencional". Parece contundente, corajoso, mas não é. É conformista na exaltação de valores familiares, do papel da polícia como força da honestidade e do bem. Apesar do personagem de Del Toro, que trata mal os latinos - mas isso é moeda corrente em Hollywood.Convém, de qualquer maneira, não ser muito severo com Traffic. O filme tem uma cena extraordinária, embora ela fique meio diluída no relato. Preste atenção. Soderbergh, que despontou com o supervalorizado, mas bom, sexo, mentiras e videotape - filme que venceu a Palma de Ouro e apontou, na época (o fim dos anos 80), para o cinema do futuro -, criou um amplo painel sobre essa guerra particular, para usarmos a definição de João Moreira Salles, em seu admirável documentário, que é a guerra do tráfico, travada no coração das grandes cidades.Visão multifacetada - O relato desenvolve-se em diversas frentes. Um juiz americano indicado por seu governo para combater o tráfico tem problemas familiares (a filha é drogada), um policial mexicano tenta manter a integridade em meio à corrupção que grassa na instituição, em seu país, um pilar da comunidade nos EUA é preso como traficante e a mulher vai fazer de tudo para que ele seja solto, etc. etc. Cada um desses episódios poderia dar um filme. Soderbergh desenvolve-os todos e o faz com habilidade. O roteiro, de Stephen Gaghan, um ex-viciado - também indicado para o Oscar -, une todas essas linhas, a direção dá-lhes unidade por meio de um estilo semidocumentário, a que não faltam, no entanto, certos brilhos estilísticos - o uso da monocromia em muitas cenas, por exemplo.Cenas. Uma das mais significativas ocorre logo no começo. Michael Douglas, como o juiz, participa de um evento social em Washington. Discutem-se as drogas e Soderbergh introduz certas sutilezas. No momento em que pronuncia seu discurso antidrogas numa conversa mais reservada, o juiz pede mais um uísque. Mais tarde, a mulher vai acusá-lo de beber demais. E há o personagem que fuma obsessivamente - dois, três maços de cigarros por dia. O cigarro e a bebida são socialmente aceitos, mas são drogas - a propósito disso, vale lembrar o belo filme de Michael Mann O Informante, que foi o grande injustiçado no Oscar do ano passado. Por mais sugestivos que sejam esses toques - essas "sutilezas" -, a grande cena, a maior de Traffic, que justifica a própria existência do filme, é outra.É quando o juiz pede ao rapaz que induziu sua filha ao vício o acompanhe numa descida ao inferno do submundo. A garota fugiu e o pai sabe que ela deve estar nesse universo sinistro, tentando conseguir a droga. Ele roda de carro com o rapaz pelas esquinas perigosas. Num momento, desabafa - "Como você pôde trazer minha filha a esse lugar?" O que se segue é o diálogo mais contundente saído das usinas de Hollywood nos últimos tempos. O rapaz faz uma análise do que a droga representa como atividade econômica na sociedade americana. E mais - analisa o papel de afro-americanos e hispano-americanos, negros e chicanos no processo. Diz que, se os envolvidos fossem wasps (brancos, protestantes e anglo-saxãos), a coisa seria outra. É de estarrecer. Pensando bem, Traffic até merece o Oscar. Por essa cena.Traffic (Traffic) - Drama. Direção de Steven Soderbergh. EUA-Ale/2000. Duração: 147 minutos. 18 anos.

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