Tradicional polêmica marca exibição de "Gaijin"

Mais dois concorrentes aos kikitos do Festival de Cinema de Gramado: o documentário Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel, e o épico de ficção Gaijin - Ama-me como Sou, de Tizuka Yamasaki, foram apresentados ontem à noite. O primeiro conta a experiência do diretor, pai de uma criança com síndrome de Down, e o segundo fala da saga da imigração japonesa ao Brasil, contemplando a vertente contemporânea, que é o retorno às origens dos dekasseguis. Tizuka apresentou seu filme dizendo que era uma "produção grande", quer dizer cara, e acrescentou que, hoje em dia, no Brasil, isso já passara a ter uma conotação negativa, como se fosse um pecado fazer filmes caros. "Precisamos de filmes de todos os gêneros e custos para formar uma cinematografia forte e não apenas de filmes de baixo orçamento", defendeu no palco. A resposta era uma óbvia alusão à fala anterior de Domingos Oliveira que, além de trazer a Gramado um filme de custo muito reduzido, Carreiras, também lançou um manifesto jocosamente chamado de BOAA - Baixo Orçamento com Alto Astral. A postura do diretor não agradou muito aos cineastas presentes, que a acharam politicamente pouco oportuna para este momento, justamente quando lutam por mais verbas públicas para seus projetos. Segundo os opositores de Domingos, o manifesto dá a entender que é possível fazer filmes com custo quase zero, empregando a família, não pagando técnicos e gravando tudo em digital. Um deles, que preferiu permanecer no anonimato ao falar com o Estado, disse que "se isso fosse uma receita de Domingos para uso próprio, tudo bem, agora, querer generalizar é dar um tiro no pé". Entre uma polêmica e outra, o festival continua quente, pelo menos do lado de fora do cinema, onde hordas de adolescentes (de todas as idades) sobem a serra, de Porto Alegre rumo a Gramado, para ver de perto as "celebridades", dar gritinhos e - grande sonho de consumo - conseguir um autógrafo e posar para fotos ao lado do ídolo, para mostrar depois aos amigos. Já na sala de cinema, o entusiasmo tem sido bem mais moderado, o que se justifica, em parte, pelo preço do ingresso, particularmente salgado: nos dias comuns um lugar na platéia custa R$ 60 e no mezanino sai por R$ 40. No sábado, noite da premiação, os preços sobem para R$ 80 e R$ 60. Haja fôlego. E se o ambiente anda quente, o clima propriamente dito inverteu a tendência dos últimos dias. Choveu, a temperatura caiu e a tradicional neblina cobriu a serra. Esse é considerado um fator importante para o glamour da festa, pois permite que as pessoas tirem suas peles e casacos das malas e passem a exibi-los na passarela da noite, o tapis rouge gramadense. Nesse quadro mais propício para uma festa do cinema que se propõe a ser a mais charmosa do país, Gramado ainda exibe concorrentes por mais dois dias. Hoje à noite serão mostrados o documentário Doutores da Alegria, de Mara Mourão, e a ficção Sal de Prata, do gaúcho Carlos Gerbase. A expectativa em torno de ambos tem sido bem favorável, em especial em relação a Gerbase, que joga em casa e portanto deve ter casa lotada para defender as cores do Rio Grande do Sul na corrida aos kikitos. Não está sozinho: Cerro do Jarau, de Beto Souza e Diário de um Novo Mundo, de Paulo Nascimento, também são produções gaúchas.Na parte da tarde continua rolando a mostra latina, que já apresentou Buenos Aires 100 km (Argentina), Um Dia sem Mexicanos (México), Punto y Raia (Venezuela), Kiss Me (Portugal) e Roble de Olor (Cuba). Uma boa mostra, até agora, com destaque para Punto y Raia, de Elia Schneider, que aborda, com energia e senso de humor, os problemas de fronteira entre a Venezuela e a Colômbia. Essa mostra vem atraindo bom público ao cinema. Seria demais dizer que anda lotando a sala, mas a freqüência revela que o interesse pelas produções latinas está aumentando, o que é um bom sinal, pois quase não as vemos nas salas do circuito comercial.

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