Trabalho resgata 20 anos de história

Resgatar 20 anos de conquistas extraordinárias do Brasil na F-1, façanha não igualada por nenhuma outra nação, é um dos objetivos do documentário A Era dos Campeões, da Hangar Filmes. De 1972 a 1991, o País venceu oito vezes o Mundial de Pilotos e em quatro oportunidades foi vice. As trajetórias de Emerson Fittipaldi, Nélson Piquet e Ayrton Senna, os campeões do Brasil, histórias curiosas vividas por cada um, momentos de tensão, confissões, acusações, relatos e análises. Tudo pode ser encontrado na fita. Mas atenção: não espere nada muito revelador. A produção, bastante válida como registro histórico, não acrescenta tanto àquilo que os aficionados por F-1 já sabem.Os brasileiros quase se esqueceram daquela fase de acordar mais cedo aos domingos para acompanhar as transmissões das corridas de F-1 na TV. Hoje, muita gente ainda tem o hábito, mas é diferente. A perspectiva de um piloto brasileiro vencer praticamente não mais existe. E, pior, as possibilidades de o País voltar a viver aquela festa não são boas, ao menos a curto prazo. Entre 1972 e 1991, fãs ou não do automobilismo puderam comemorar, além dos dois campeonatos de Emerson, três de Piquet e três de Senna, nada menos de 78 vitórias e 95 pole positions. Só dos três. Até países de tradição maior que a brasileira nas pistas, como Inglaterra, Itália e Alemanha, não têm no currículo período tão eficaz de resultados. Há dez anos o País não é campeão do mundo na F-1. Nunca a nação ficou tão distante das maiores comemorações do Mundial como agora.Desafios - Diante dessa realidade, o documentário surge como oportuno. Emerson e Piquet contam pessoalmente os desafios e dificuldades que enfrentaram para estabelecerem-se como os melhores do mundo. Já Senna aparece nos vídeos que gravou logo no início da carreira. A seqüência do seu excepcional trabalho vem de depoimentos de amigos e colegas que dividiram o dia-a-dia nos autódromos com ele. A não ser por uma ou outra história, o revelado por todos não foge muito ao que inúmeras vezes, eles próprios, já contaram.Mas há passagens pouco exploradas e não de conhecimento geral. "Juntei tudo o que tinha para comprar um Porsche, em 1969", conta Wilson Fittipaldi. O carro tinha sete quilômetros quando o retirei da loja." Emerson, na época com 22 anos, pediu-lhe para dar uma volta. "Como ele demorava a voltar comecei a ficar preocupado. Logo em seguida chegou a notícia de que o Emerson havia destruído o Porsche num poste da Avenida Morumbi, em São Paulo." O mais surpreendente vem em seguida: "Vendi o que sobrou do carro e dei o dinheiro para ele viajar para a Europa e correr de Fórmula Ford", destaca Wilson. Curiosamente não há nenhum depoimento do pai dos dois irmãos, Wilson Fittipaldi, o Barão. Foi a partir do seu entusiasmo como jornalista da área e de sua mulher, também ex-pilota, que Emerson acabou por enveredar no universo dos esportes a motor e tornar-se o pioneiro do setor.Muro - Outro desses momentos que marcam a fita é uma entrevista de Mauricio Gugelmin, grande amigo de Senna. "Estávamos em Angra dos Reis, pouco antes da corrida de Ímola, em que ele morreu", lembra o atual piloto da Fórmula Indy. "Na hora de ir embora, o Ayrton disse para mim, com estas palavras: "Oh guri, fica de olho naquele muro lá, hein", diz Gugelmin. "O Ayrton me recomendou cuidado com os ovais e ele próprio perdeu a vida num muro, dias depois."Outra passagem narrada por Gugelmin prende o espectador: "O Senna e o Ron Dennis (diretor da McLaren) discutiam, na minha casa, os valores do contrato a ser assinado", conta. "Senna queria US$ 500 mil a mais por ano e Dennis não pretendia pagar. O negócio foi definido na cara e coroa, na moeda mesmo. Deu Dennis. Só naquele instante o Ayrton perdeu US$ 1,5 milhão, porque o compromisso era de três anos."O velho e cansativo kit outsider de Piquet surge com força total em A Era dos Campeões, ainda que algumas poucas colocações sejam novas. Por exemplo: "Eu ganhava US$ 1 milhão por mês na Lotus", afirma, sem receio. O campeão do mundo de 1981, 1983 e 1987 recorda fatos como seus famosos truques para tornar os carros mais velozes. Mais: critica, de novo, o locutor da "Globo", Galvão Bueno e, claro, sua obsessão, Rubens Barrichello.Uma direção mais experiente com a história da F-1, ou mesmo com aquilo que se publica a respeito desse esporte, conduziria as entrevistas de forma distinta. Quando Piquet, por exemplo, fosse cair no lugar-comum de suas declarações, como tanto gosta, o diretor poderia orientar a conversa, de maneira a tirar desses personagens, ricos de informações, curiosidades que fugissem ao já tão batido. Na maioria das vezes é o que ocorre no documentário.

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