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Trabalho de luto no reencontro com País marca drama pessoal de 'Deslembro'

Filme de Flávia Castro se propõe discutir questões em termos mais afetivos do que intelectuais.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2019 | 21h20

O que é a memória? O que significa lembrar, em especial de fatos e tempos traumáticos? Deslembro, de Flávia Castro, se propõe discutir essas questões em termos mais afetivos do que intelectuais. É o primeiro filme de ficção de Flávia, conhecida por seu documentário Diário de uma Busca. Esse também se dava no âmbito da memória. 

O que temos aqui, como pano de fundo, é o período traumático da ditadura militar brasileira. Pessoas foram mortas e outras “desaparecidas”. Outras foram torturadas e muitas foram viver no exterior. É o caso da família de Joana (Jeanne Boudier), adolescente que vive na França. O pai é um desaparecido político. A mãe (Sara Antunes) casou-se de novo com um ativista chileno, membro do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionária). Com a Anistia, a família resolve mudar-se para o Brasil. A adolescente preferia continuar na França. Mas segue a mãe, os irmãos e o padrasto. 

O filme é, então, o reencontro com o Brasil, país que ainda vive sob ditadura, mas já respira ares de uma abertura democrática sem prazo para ser concluída. Adolescentes têm pressa. Joana reencontra-se com um país um tanto estranho, arruma um namoradinho, curte a música brasileira e a praia, mas não consegue se livrar de seus fantasmas pessoais. É filha de um homem assassinado pela ditadura em circunstâncias ainda não esclarecidas – “ E se ele ainda estiver vivo?”, pergunta à mãe, que se defende com evasivas. 

A única que responde aos anseios da menina é sua avó paterna, magnificamente interpretada por Eliane Giardini. É a avó quem mostra à menina os recortes de jornais da época e é também quem fala de toda uma luta para descobrir o paradeiro do filho, ou, pelo menos, do seu corpo. Ensina que toda essa luta não foi em vão porque, embora não tenha chegado a qualquer conclusão, suas investigações puderam ajudar a outras famílias de desaparecidos.

De certa forma, Deslembro é também um filme de busca, assim como o documentário inaugural de Flávia. Desta vez, usando os recursos da ficção, a diretora reflete sobre a necessidade de saber, que permite a superação de traumas e a possibilidade de seguir adiante. 

Passa-se assim com as ditaduras. Elas produzem uma espécie de violenta descontinuidade histórica, uma cicatriz que demora a ser fechada. As pessoas diretamente atingidas (de forma indireta todas o são) buscam, com toda justiça, um caminho para refazer suas vidas. Precisam de um corpo para fazer o luto. De uma história completa para poderem chorar e seguir vivendo. Mesmo esses confortos mais elementares lhes são negados. Na figura de Joana, Deslembro é o trabalho da História tentando seguir seu curso após o trauma. 

 

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