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'Toy Story 3': 'difícil foi retratar os humanos'

'Tecnologia do 3D, por mais importante que seja, é só uma ferramenta a serviço da história', diz diretor

18 de junho de 2010 | 06h00

Luiz Carlos Merten

 

SÃO PAULO - Há no final de Toy Story 3 uma cena que remete ao desfecho do clássico Os Brutos Também Amam, de George Stevens. Os cinéfilos lembram-se - o menino Joey vê o pistoleiro interpretado por Alan Ladd partir. Corre atrás deles, chama-o, mas Shane não se volta. Uma sombra passa pelo olhar de Joey e o garoto faz-se homem num momento, por meio dessa perda. Em Toy Story 3, a cena envolve Andy, o garoto que, aos 17 anos, está partindo para a faculdade e deixando seus brinquedos preferidos, especialmente o caubói Woody. Veja para saber como é.

 

Numa conversa por telefone, de Hollywood, o diretor Lee Unkrich confessa-se lisonjeado pela comparação, mas diz que ela está nos olhos de quem vê. "Nunca pensei em Shane, nem depois do filme pronto, mas agora que você está falando percebo que existem implicações. O bom do cinema é isso. Você pode pensar nos filmes, colocar muitas coisas pessoais, mas o olhar do outro é que vai completar a obra. Shane é um clássico, um dos maiores filmes no cinema. Pode ser que, inconscientemente, estivesse no meu, no nosso imaginário, como referência, mas não foi intencional. Fico feliz, porém."

 

O terceiro filme da série Toy Story estreia nesta sexta, 18. É ótimo. Há 15 anos, quando surgiu o primeiro, dirigido por John Lasseter, o público adorou e a crítica imediatamente percebeu que a empresa Pixar, trabalhando com computação, estava revolucionando a animação. Mesmo assim, Unkrich admite que muita coisa mudou, nesta década e meia. "É um período curto, mas naquela época não havia tecnologia para muita coisa que queríamos fazer em Toy Story. No 2 e no 3, o domínio da técnica nos permitiu ir mais longe e isso, ao mesmo tempo, criou novos desafios."

 

Qual foi o de Toy Story 3? A 3-D, que a Pixar, afinal, já havia utilizado em Up - Altas Aventuras? "Não, para falar a verdade, a coisa mais difícil de Toy Story 3 é a que talvez pareça mais banal aos olhos do público. O formato 3-D amplia a sensação de realidade e projeta o público dentro da ação. Justamente por isso, sempre tive muito claro que os personagens ‘humanos’ tinham de ser absolutamente convincentes. A verdadeira revolução das últimas décadas foi a motion capture, que Peter Jackson usou para criar o Gollum em O Senhor dos Anéis e James Cameron reutilizou em Avatar. Ambos usaram animadores para finalizar seus personagens e abriram caminho que só podemos imaginar."

 

A imaginação é o limite, a tecnologia tudo permite - proclamou o próprio Cameron em São Paulo, quando veio lançar o DVD de Avatar. Unkrich concorda. Como sempre na Pixar, o desenvolvimento da história foi uma etapa decisiva - e demorada. "A linha geral da história, incluindo o final, foi definida em dois dias, mas eles precisaram depois de dois anos e meio de desenvolvimento." O roteiro foi sendo ‘aperfeiçoado’ até a montagem final. É como John Lasseter gosta de dizer - a tecnologia, por mais importante que seja, é só uma ferramenta a serviço da história.

 

É justamente a fascinação pela história que faz de Hayao Myiazaki o grande nome da animação contemporânea, segundo Unkrich. "John (Lasseter) e ele são grandes amigos, mas não se pode falar numa interação dos processos criativos. Myiazaki trabalha de forma mais artesanal e certamente atribui menos peso ao desenvolvimento tecnológico, o que não impede suas animações de serem extraordinárias, do ponto de vista visual. Eu me encanto com seu imaginário, diferente do nosso, e a importância que dá ao silêncio." Como signo dessa admiração, um dos brinquedos de Toy Story 3 é inspirado nas criações de Myiazaki. Qual? "Eu sei, ele sabe. Se as pessoas não perceberem, não tem importância."

 

Toy Story 3 - Direção: Lee Unkrich. Gênero: Animação. Censura: Livre. Cotação: Ótimo.

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