Toy Story 2 chega às locadoras

É um daqueles raros casos em que a seqüência consegue ser tão boa e até melhor que o original. Não representa pouca coisa porque Toy Story, o primeiro da série havia sido considerado um prodígio de animação. Pois John Lasseter conseguiu se superar na continuação. Toy Story 2 tem um visual ainda mais arrebatador e impressionante que o primeiro filme. Foi até um dos fatores pelos quais o filme arrebentou nas bilheterias dos EUA, faturando em 15 dias uma vez e meia o que Pokémon havia demorado quatro meses para arrecadar. No Brasil, Toy Story 2 teve 1,8 milhão de espectadores nos cinemas, um número bom, senão altamente expressivo. O filme está nas locadoras e lojas especializadas no formato vídeo desde o começo do mês. Na semana passada, começaram a chegar os DVDs.Inaugurou-se, com o primeiro Toy Story, uma nova fase da animação. Quase todos os filmes da Disney, a partir de A Bela e a Fera, incorporaram ao desenho tradicional as mais sofisticadas técnicas da computação gráfica. A Bela e a Fera dançavam no computador, todo mundo sabe, e, depois, vieram filmes ainda mais impressionantes, entre eles, O Rei Leão, uma das melhores (senão a melhor) animações de todos os tempos. Com Toy Story, a empresa Pixar radicalizou e criou o primeiro desenho inteiramente feito com computador. Pode parecer pouca coisa, apenas mais um degrau na escada da (r)evolução técnica, mas é mais.Basta comparar os brinquedos de Toy Story (1 e 2) com aqueles que, em Fantasia 2000, ilustram a velha história do soldadinho de chumbo. Os brinquedos de Toy Story 2 não são criaturas humanizadas, frutos da projeção da infância e do pensamento animista que leva as pessoas a se dirigirem aos objetos como se fossem criaturas vivas na ficção. A originalidade do filme, do 1 como do 2, consiste em adotar, estritamente, o ponto de vista dos bonecos, contrapondo-se a toda uma corrente narrativa do cinema de animação que faz do brinquedo o prolongamento natural de uma visão de mundo mediatizada pelo olhar e pelo comportamento da criança.Foi o que percebeu o crítico francês Charles Tesson. Num texto intitulado Os Brinquedos também Morrem, nos Cahiers du Cinéma, ele começa se perguntando se os bonecos de Toy Story 2 têm alma. Pode ser que não, mas possuem, em todo caso, uma história nesse novo mundo virtual, inteiramente produzido e animado no computador. A grande pergunta de Tesson é: "E se a existência desses personagens fosse, acima de tudo, um affaire de mise-en-scène?" Tesson toca aí na essência mesmo do cinema. O segredo da arte da direção é isso que os franceses chamam de mise-en-scène, a maneira de relacionar ator e cenário, de armar o plano e estabelecer, por meio da junção das cenas na montagem, uma reflexão sobre o homem no mundo.O cinema é isso - uma reflexão sobre o ser e o estar das pessoas no mundo. Isso pode ser percebido em Toy Story 2. É até um dos fatores, talvez o principal, que fazem do filme não apenas um acontecimento para crianças, mas também para adultos. Esse é um daqueles que você, papai ou mamãe, tem o maior prazer de assistir com os filhos. Foi assim nos cinemas. O encanto deve renovar-se agora no vídeo e, em seguida, no DVD. Logo no começo de Toy Story 2, o pingüim é confrontado com o que não deixa de ser uma situação trágica para um brinquedo - está sendo feita uma limpeza no quarto de Andy. Todos os bonecos velhos, agora considerados inúteis, são jogados no lixo. O caubói Woody, personagem emblemático - que remete a uma tradição de mocinhos salvadores do mundo no western -, tenta impedir que isso ocorra.Para salvar o pingüim, termina caindo nas mãos de um colecionador para o qual ele é a peça rara que faltava. Os amigos tentarão recuperá-lo e, assim, monta-se a história de Toy Story 2, que trata, com engenhosidade, de temas clássicos da cinedramaturgia voltada para a criança e o adolescente - a descoberta do amor, a exaltação dos valores da amizade e da solidariedade. O resultado é encantador. Toy Story 2 é daquelas animações que transcendem o conceito de filme para crianças. É um filme para todos. Representa um daqueles momentos em que a animação, realmente, vira uma forma adulta de expressão.Toy Story 2 (Toy Story 2). EUA, 1999. Direção de John Lasseter (com Lee Unkrich e Ash Brannon). Buena Vista Home Entertainment. Vídeo - 19,90 reais; DVD, 35 reais.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.