Tormentos de Pollock levam Harris à direção

Em 1986, no aniversário de Ed Harris, o pai do ator deu-lhe uma biografia do revolucionário pintor Jackson Pollock (1912-1956), um dos criadores do expressionismo abstrato. No ano seguinte, na mesma data, Harris ganhou do pai outro livro sobre o artista. O ator demorou anos para lê-los, mas, quando o fez, decidiu levar para as telas a trajetória desse pintor que, pela personalidade intensa e pela morte precoce em um violento acidente de carro, tornou-se um mito nos Estados Unidos.O longa Pollock, estréia de Harris como diretor, foi lançado dia 15 nos EUA - sua data de chegada ao Brasil não está definida. Ed Harris interpreta o artista alcoólatra, que marcou a arte contemporânea com suas gigantescas telas. Punha-as deitadas no chão, e sobre elas deixava escorrer a tinta, formando acúmulos de manchas, borrões e linhas."A princípio, pensei que bastaria pegar um pincel. Mas, aos poucos, percebi que o maior desafio seria entender emocionalmente o que significa ser pintor´´, disse Harris, 50 anos, conhecido por papéis em O Segredo do Abismo, Apollo 13 e O Show de Truman, que lhe valeu um Oscar de coadjuvante. A seguir, a entrevista que Harris concedeu à Agência Estado em Veneza, onde Pollock foi bem-acolhido no Festival de Cinema de 2000.Agência Estado - O que mais o atraiu em Pollock, a arte ou o artista?Ed Harris - Ao descobrir quem foi Pollock, graças à insistência de meu pai, fiquei impressionado pela figura controversa e revolucionária. Pollock mudou o curso da arte contemporânea. Quando morreu, aos 44 anos, era o mais célebre pintor dos EUA. Sua trajetória está no filme. Mas optei por abordagem mais pessoal.Seu pai viu algo em comum entre vocês?Eu nunca soube por que meu pai insistiu para que eu conhecesse a história de Pollock. Mas, como eu estava enfrentando um problema com bebida na época, acho que pode ter sido isso. Comparando nossas vidas, vejo que também passei por uma fase de medo. Lembro de acordar e me perguntar o que estava fazendo da vida. Já fui uma pessoa que achava difícil viver. Queria me sentir aceito, apreciado pelos outros. Não tinha tanta insegurança profissional como Pollock, mas tive meus períodos de dúvida.Foi essa identificação que fez dirigir o filme?Não. Eu decidi dirigi-lo porque passei tanto tempo trabalhando nesse projeto que me sentia muito próximo do material. A cinebiografia de Pollock se tornou um projeto pessoal para mim. Eu não tinha intenção de dirigir no início. Até falei com outros diretores. Mas, aos poucos, percebi que não conseguiria aceitar a visão de outra pessoa sobre o assunto. O mais engraçado é que eu não sabia qual era a minha visão sobre Pollock. Mas tinha a certeza de que não era a mesma visão deles.O filme não esconde a insegurança, a arrogância, o desespero e até a obsessão de Pollock por Picasso...Isso porque, antes de mais nada, eu vejo o filme como uma experiência humana. O que mais me interessou foi mostrar sentimentos como a impotência que ele sentia diante da arte de Picasso, que admirava imensamente. Ele pensava: "Se Picasso já fez tudo, o que eu posso fazer?´´ Picasso sempre foi a maior inspiração de Pollock, mas seu ego não gostava de admitir isso.Você vê na relação amorosa de Pollock com a pintora Lee Krasner algo destrutivo?A maior qualidade dela foi reconhecer o potencial artístico de Pollock. Tudo o que ela fez, foi pela arte. Lee era mais fascinada pelo trabalho dele do que pelo homem. Mesmo sentindo-se diminuída pelo talento dele, ela alimentou o seu trabalho e o encorajou. Mas ele queria outra coisa, precisava de mais atenção. Eu não sei o que teria acontecido com a arte de Pollock, se ele tivesse encontrado outra pessoa. Alguém que o amasse de verdade, que o amasse pelo que ele era.Houve algumas passagens da vida de Pollock que você preferiu não mostrar?Não. Senti o inverso. Deixei de retratar muitas fases de sua vida por falta de dinheito ou tempo. Queria inserir imagens da juventude de Pollock em Phoenix, ao lado da mãe, do pai e dos irmãos. Também gostaria de ter mostrado como ele se relacionava com outros artistas. Mas acabei cortando isso. Ou teria de fazer um filme de quatro horas.O que você acha do trabalho de Pollock?Eu não entendo dessas coisas. Sinceramente não sei se é bom. O que me incomoda é o conceito de que isso é arte. Eu certamente aprecio a coragem e a mente criativa de Pollock. Mas, visualmente, seu trabalho não me toca muito.Você interpretou o personagem com confiança, principalmente nas cenas em que ele está pintando. Como se preparou?Isso eu sei fazer muito bem: mostrar confiança mesmo quando eu não tenho a menor idéia do que estou fazendo. Na verdade, seu não me preocupei muito com as pinturas em si. Até porque a câmera não está interessada nelas e sim no processo de criação. Então, estudei um pouco de pintura, pesquisei a forma como Pollock trabalhava e tentei imitá-lo, reproduzindo algumas de suas obras. Todas as pinturas ainda estão na minha casa na Califórnia. Mas naõ terminei nenhumas delas.Pretende voltar a pintar?Espero que, após ter descoberto a pintura, eu sinta novamente vontade de brincar com os pincéis. Adoraria pintar com a minha filha. Quem sabe não começarei a fazer aulas? O que mais me atrai a respeito é que o tempo desaparece. Quando pinto, as horas voam.Aceitaria exibir suas pinturas?Como se alguém fosse interessar-se por elas...

Agencia Estado,

02 de janeiro de 2001 | 00h05

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