'Toquei Todas suas Coisas' retrata história de um prisioneiro americano no Brasil

Filme integrou mostra do Festival de Cinema de Marselha

Flavia Guerra , O Estado de S. Paulo

12 de julho de 2014 | 16h00

Um americano tranquilo e entediado, que decide viajar à Colômbia para conhecer os hipopótamos que Pablo Escobar deixou de legado quando sua mansão, fortuna e vida ruíram. Chegando lá, conhece V., uma garota linda, filha de um japonês e uma colombiana. Eles começam um relacionamento e ele passa a viver experiências que nunca imaginara, a lidar com uma figura dúbia e sedutora, repleta de contradições, que o faz, ao mesmo tempo, se apaixonar por ela e suspeitar de todos os seus passos. 

A premissa de Toquei Todas as Suas Coisas, de Matias Mariani e Maíra Bühler, seria digna de uma ficção surreal. Mas a história de Christopher Kirk e V. é real. E é contada pelo próprio Chris no documentário que acaba de ser exibido em competição no FID – Festival Internacional de Cinema de Marselha, na França. 

Tudo começou em 2009, quando os diretores filmavam o premiado Ela Sonhou Que Eu Morri, de 2010, um retrato da globalização pelo olhar e pelos depoimentos de estrangeiros presos no Brasil. “Conversamos com vários presos e assim conhecemos o Chris. Ele disse que revelaria sua história, mas precisava de seis horas. E resolvemos ouvi-lo”, lembra Mariani. “Vimos que seu relato não caberia em Ela Sonhou e decidimos fazer outro filme”, comenta ele.

Dupla que também dividiu a direção da ficção Fios de Ovos (2013), Mariani e Maíra conseguiram montar um painel interessante da trajetória deste especialista em computadores que deixa sua cidade natal, Olympia, em Washington, que só queria se divertir na América Latina, mas acaba entrando em um processo que o leva a ser preso por tráfico de drogas no Brasil, anos depois. 

Como os caminhos o levaram até a prisão é o mistério a ser descoberto. E foi a forma como os diretores resolveram narrar esta história que seduziu a equipe de seleção do FID, no qual o longa fez sua estreia mundial, arrancando diversos elogios. 

Chris esteve presente no festival e participou dos debates após as exibições. “Foi ótimo. E as pessoas ficavam em dúvida se era ficção ou realidade, o que não esperávamos”, relata o diretor Matias Mariani, que, ao lado de Maíra Bühler, aparece no filme conversando com entrevistados em chats virtuais. 

Como quem busca pistas para montar um quebra-cabeças complexo, os diretores também viajaram a diversas cidades nos EUA e conversaram com amigos de infância, além de pessoas que ele conheceu na Colômbia, entre outros. “Não esperávamos que pensassem que a história poderia ser inventada, mas esta dúvida sempre esteve presente no processo do filme. O Chris é o tempo todo uma espécie de personagem dele mesmo”, reflete a diretora. “É uma trama com muitos níveis, que envolve de forma dramática a ficção, a construção do enredo propriamente dito”, completa Mariani. 

Para construir este personagem real, os diretores tiveram acesso irrestrito ao HD do computador de Chris. “Isso enriqueceu e deu uma grande força para o longa. E percebemos que a saga estava ali, que poderíamos contá-la por intermédio de vídeos, fotos, músicas, chats e afins”, conta também o diretor.

Com o material do HD, o mosaico ganhou novas camadas e os relatos de Chris sobre V. ganharam imagens, sons e escritos. Até mesmo registros de conversas em bate-papos virtuais ilustram o filme. “Entender melhor o Chris pelos relatos dele sobre a V. foi fascinante. A primeira sensação que tive do Chris foi a empatia por ela. Há um americano que viaja para a América do Sul, encanta-se por uma colombiana. Ele tenta entendê-la e dominá-la. É quase uma metáfora da tentativa de domínio dos EUA sobre a Colômbia”, explica Maíra. “Ao ter acesso ao HD dele, esta questão da invasão do espaço se colocou. Até que ponto poderíamos invadir a sua vida?”, questiona ainda Mariani. 

O equilíbrio entre a exposição da privacidade de Christopher Kirk e a dúvida que se mantém sobre ele é a chave da narrativa. “Estou tentando entender a parte do Chris que a gente não consegue ver quando olha para seu rosto”, diz Maíra em cena do filme. É este enigma que também intriga o espectador. “Não é a versão do Chris, nem a da V. ou dos amigos, mas sim a de dois cineastas brasileiros que se perguntam quem era esse personagem. Em anos de feitura do filme, era nossa dúvida que estruturava tudo”, conclui Maíra. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.