Paramount Pictures
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‘Top Gun: Maverick’ é uma viagem bem-vinda à zona de perigo

Clássico dos anos 80 estrelado por Tom Cruise ganha sequência e ecoa questões do passado com muita ação

Mark Kennedy, AP

19 de maio de 2022 | 10h00

No início de Top Gun: Maverick, Tom Cruise, de óculos de sol Aviator e jaqueta de couro, sobe na sua motocicleta possante e acelera uma máquina do tempo. Não, não é bem isso. Na verdade, somos nós que fazemos uma viagem de volta ao passado.

Mais de trinta anos depois que Cruise abriu caminho para uma das expressões mais convencidas dos anos 80 como o piloto da Marinha de codinome Maverick, ele retoma o personagem sem qualquer esforço no novo capítulo de Top Gun – uma viagem absolutamente agradável, um exemplo didático de como fazer uma sequência.

Top Gun: Maverick satisfaz a plateia com um pé no passado, trazendo todas as marcas registradas do primeiro filme – motocicletas rápidas, a música ‘Danger Zone’, fetichismos militares, superiores mal-humorados, esportes sem camisa, cantorias no bar e manobras aéreas – mas ainda fica de pé por conta própria. Não é sobrecarregado por sua história como a última sequência de ‘Ghostbusters’, mas usa o presente para ecoar questões do passado.

Cruise está de volta, claro, reprisando seu rebelde piloto de testes, agora lotado num canto esquecido do deserto de Mojave: é um mero capitão quando deveria ser almirante só porque continua contrariando a autoridade. Os anos não acalmaram o estilo impulsivo e a cabeça quente de Maverick. Os pilotos fazem, argumenta ele, não ficam ruminando as coisas. “Lá em cima, se você para pra pensar, você morre”, afirma ele. É Cruise na sua melhor forma: sedutor, seguro e arrogante, os dentes brilhando na luz do sol.

Seu outrora rival Iceman – Val Kilmer – e também está de volta, agora chefão na Marinha. E até Goose está de volta, por meio de seu filho, o igualmente bigodudo Miles Teller, que é muito parecido com Anthony Edwards, ator que interpretou o parceiro de voo de Maverick e seu melhor amigo no primeiro filme. Sua morte continua pesada para Maverick mesmo trinta anos depois: “Fale comigo, Goose”, ele sussurra para si mesmo.

Algumas coisas mudaram, é claro. Os F-14A Tomcats foram substituídos pelos F/A-18 e os pilotos arrogantes do primeiro filme viram a chegada de algumas mulheres igualmente arrogantes. Infelizmente, parece que são os últimos dias de ousadia de homens e mulheres na aviação: as aeronaves sem piloto são mais confiáveis e estão chegando. “O futuro está aí e você não vai fazer parte dele”, Maverick ouve de Ed Harris, que interpreta mais um almirante mal-humorado.

Mas, à beira da extinção, Maverick tem uma última missão na Marinha: treinar um grupo de jovens presunçosos para uma perigosa missão de bombardeio no Irã. O problema: entre os jovens que ele precisa treinar está o filho de Goose, codinome Rooster. Será que Maverick vai perder esse também? Será que vai conseguir enganar John Hamm, que faz um oficial autoritário com uma deliciosa calma furiosa?

O diretor Joseph Kosinski dá ao filme uma sensação visceral, nos fazendo sentir claustrofóbicos mesmo no céu aberto onde os pilotos fazem mergulhos e loopings. Ele alterna maravilhosamente entre cenas barulhentas com turbinas rugindo e cenas silenciosas com as pessoas quase sussurrando. E também oscila entre o sol brilhante e os interiores escuros.

Um toque de boas-vindas no roteiro de Ehren Kruger, Eric Warren Singer e Christopher McQuarrie é o novo interesse amoroso de Maverick. Jennifer Connelly interpreta uma dona de bar divorciada que tem uma casa na cidade, uma casa na praia, um veleiro e um Porsche, então os negócios vão bem. Mas ela também não fica nas mãos de Maverick e, numa cena chave, é a capitã de um barco onde ele não sabe o que fazer.

Trata-se de um Maverick mais pensativo, mais sombrio. Top Gun: Maverick é de certa forma uma meditação sobre o que acontece com rebeldes talentosos mais tarde na vida. Ele está dilacerado pela culpa e, a certa altura cena, é jogado para fora de um bar sem a menor cerimônia pelos mesmos valentões com quem ele andava trinta anos antes. Pior: ele é chamado de “tiozinho”. O mais notável é que Cruise parece ter encontrado uma maneira de enganar o tempo. Seu corpo esculpido e rosto ainda infantil são indistinguíveis dos pilotos três décadas mais jovens com quem ele joga futebol na praia.

O filme lida com as coisas pessoais de Maverick – dar em cima da garçonete, consertar seu relacionamento com o filho de Goose – ao mesmo tempo em que cumpre suas promessas de filme de ação. Tem jatos desafiando a gravidade, duelos épicos, o som metálico dos equipamentos de cockpit e o rangido de máquinas recusando as demandas que lhe são impostas. O enredo ainda dá algumas voltas inesperadas e emocionantes. Então suba na moto de Maverick, abrace-o com força e junte-se a ele na estrada para a zona de perigo. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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